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Um jantar à luz de velas

Mais uma da série: histórias marcantes de viagem. E do tipo só quem viaja sozinha vai passar por isso. Acho que toda mulher sonha com aquele jantar romântico à luz de velas, no lugar perfeito, o parceiro ideal e aquele momento inesquecível. Pois é… e quando o jantar à luz de velas não é nada disso???

Tudo começa na viagem de 3 dias entre Luang Prabang, no Laos, e Chiang Rai, na Tailândia. Os primeiros dois dias foram de barco, com uma parada em Pak Ben, uma pequena cidade sem atrativo algum e que fica em um lugar qualquer às margens do Rio Mekong, para passar a noite.

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Cheguei no fim da tarde, depois de um dia inteiro dentro do barco e desprevenida para o almoço, que foi um cup noodles, um saco de batata chips e cerveja. A primeira missão era encontrar um lugar para dormir. Peguei minha mochila, desci da embarcação e andei morro acima até chegar na rua principal da cidade. Entrei na primeira casa que vi, parecia ser uma guesthouse aceitável para uma noite apenas.

Depois de um lugar encontrado, a segunda missão foi pechinchar. Depois de algum tempo no sudeste asiático isso passa a fazer parte da rotina. Minha negociação não foi das melhores e tudo o que consegui foi um desconto de 20% na diária do quarto. Ainda perguntei para as pessoas que estavam ali na recepção se alguém estava sozinho e queria dividir o quarto comigo, mas não tive sucesso. O jeito foi pagar pelo quarto de 2 camas, mesmo usando só uma delas.

Peguei a chave, me instalei no quarto e poucos minutos depois tudo ficou escuro. Apertei os interruptores do quarto e nada mudou. Abri a porta e vi que o corredor também estava escuro, devia ser um problema de energia da guesthouse. Fui para a porta e a rua inteira estava na completa escuridão, parecia ser um problema bem maior que a falta de luz da casa onde eu iria passar a noite.

Logo a dona apareceu. Uma senhora gentil e simpática, assim como a grande maioria das pessoas do sudeste asiático são. O inglês dela não era muito bom, mas ela tentou puxar conversa. Perguntei o que tinha acontecido e ela me disse que acabou a luz (eu quase não tinha percebido, sabe). Depois  perguntei se era algo que acontecia com frequência e quanto tempo demoraria para a energia voltar. Ela disse que não sabia, mas que acontecia quase sempre. Fiquei bem na dúvida se ela realmente entendeu o que eu perguntei.

Laos_pier pak ben
Pier de Pak Ben

Sem muito o que fazer e com a fome apertando, resolvi sair e procurar um lugar para comer. Já tinha ouvido falar que a cidade vivia apenas dos turistas em trânsito, não era dos lugares mais seguros e que furtos eram frequentes. Some isso ao fato de que tudo estava muito escuro e decidi por ir em algum lugar por perto para evitar problemas. Parei em um restaurante bem simples que ficava 2 ou 3 casas à frente para ver o cardápio, que estava aberto sobre um suporte em frente à porta, mas a falta de luz tornou o simples fato de lê-lo um verdadeiro desafio. E lá estava eu com a cara a 5 cm do cardápio quando uma luz surge. Era um alemão que percebeu minha dificuldade e acendeu uma lanterna para me ajudar. Depois ainda perguntou se eu já tinha terminado e se ele podia desligar a luz.

Dei uma olhada ao redor de onde estava e nada parecia ter cara melhor. Um senhorzinho saiu do restaurante e me convidou para entrar. Perguntei o que eles estavam servindo, mas parece que a falta de luz não muda em nada mesmo a rotina do lugar. “O que você quiser do cardápio a gente faz”, ele respondeu. Com fome e preguiça de andar no escuro em um lugar que diziam ser meio perigoso, decidi entrar. A única luz que iluminava o interior do restaurante era a luz da lua. Vi o alemão da lanterna sozinho em uma das mesas e fui perguntar se podia sentar com ele. No mínimo seria mais divertido que jantar sozinha no escuro.

Escolhemos nossos pratos e enquanto a cozinha os preparava, o garçom trouxe cerveja e uma vela para mesa. E assim o cenário se montou. Um jantar à luz de velas, na varanda de um restaurante com vista para o rio e iluminado pela luz da lua. Perfeito! Só tirar alguns pequenos detalhes do tipo… o lugar estava infestado de pernilongos, o restaurante era um lugar que parecia ser improvisado embaixo de uma casa (um típico restaurante local do interior do Laos), nenhum dos dois esperava um jantar romântico e muito menos tinha qualquer segunda intenção.

Foram cerca de 2 horas comendo, conversando e bebendo cerveja. Como não podia ser diferente, falamos sobre a minha volta ao mundo e a viagem pelo sudeste asiático dele, sobre nossas profissões, sobre o meu pavor de baratas e sobre as incertezas e surpresas da vida. Foi interessante e divertido.

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Pedimos a conta, nos despedimos e ele ainda disse que se eu encontrasse uma barata no caminho era para gritar bem alto que ele viria para me salvar. Hahahaha. E essa foi mais uma daquelas pessoas que passaram pela minha viagem volta ao mundo, marcaram aquele momento e que nunca mais vi.

De volta ao meu quarto, a luz já tinha voltado. Tomei um banho e fui pra cama, afinal um novo dia de aventuras me aguardava na manhã seguinte.

 

* Imagem destacada: freeimages.com

 

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The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

22 Comments

  1. Beatriz Manso ribeiro
    26/09/2016 at 15:02 — Responder

    muito bom
    essas histórias inesperadas que acontecem nas viagens são ótimas para contar para os amigos.
    continue escrevendo sobre essas histórias 😉

    • 27/09/2016 at 16:47 — Responder

      =)
      Viagens sempre deixam histórias para contar.

  2. 14/01/2017 at 18:03 — Responder

    Esses seus relatos são muito bacanas, Patrícia! Sempre fico imaginando as cenas tipo um filme hahah. Você já pensou eu escrever um livro reunindo todas as aventuras da sua volta a mundo? histórias pra contar vc tem! Beijos!

    • 17/01/2017 at 17:28 — Responder

      Muito legal saber que vc gosta, Klécia!! Fico feliz!
      Sabe que o livro eu comecei a escrever em 2015, mas entre outros projetos, viagens e problemas pessoais eu larguei.
      Ainda quero terminar e vc me deu um incentivo a mais para isso!

  3. 14/01/2017 at 19:43 — Responder

    Eu adoro essas histórias de viagens, essas pessoas que passam pelo nosso caminho, que fazem a viagem mais interessante. Devo dizer que você foi corajosa.. Eu não saia no escuro num lugar que não conheço e que dizem ser perigoso nem a pau. Sou cagona hahaha.. A real é que quando a gente ta viajando, o melhor é enfiar o medo no bolso, porque senão a gente perde justamente de ter história pra contar, né?

    • 17/01/2017 at 17:41 — Responder

      haahahhaa…. A fome falou mais alto! Já não tinha almoçado direito, precisava comer alguma coisa ou minha barriga não ia me deixar dormir.
      O medo deveria proteger a gente, mas acho que ele mais bloqueia e atrapalha. Tem que enfrentar de vez em quando e acreditar que tudo vai ficar bem. =]

  4. 14/01/2017 at 20:18 — Responder

    adoro o seu jeito de contar as histórias de viagem, você deveria fazer um livro de causos, muito interessante, no final você ainda tve companhia pra comer! abraços

    • 17/01/2017 at 17:43 — Responder

      O livro um dia sai! Eu comecei a escrever faz tempo, mas parei no meio. Vou retomar o projeto, vcs estão me incentivando!!
      No fim tudo deu certo, o jantar foi ótimo e a luz até volto para eu tomar banho. hahaha

  5. 15/01/2017 at 10:58 — Responder

    Adoro essas suas histórias da viagem de volta ao mundo.
    Bem inusitado o jantar a luz de velas com um desconhecido, mas são essas coisas que tornam a viagem mais especial!

    • 17/01/2017 at 17:46 — Responder

      Gosto de dizer que de vez em quando aparecem anjinhos em forma de pessoas para nos ajudar. E quando está tudo bem eles vão embora. =]

  6. 15/01/2017 at 12:48 — Responder

    O melhor das viagens são as histórias pra contar, né, Patricia? E você conta de forma forma muito gostosa de ler. Que coragem sair no escuro com risco, mas confesso que com fome faço de tudo também, hahaha.

    • 17/01/2017 at 17:50 — Responder

      hahahahaa… o estômago fala alto, né?? Literalmente!
      Obrigada pelos elogios! =]

  7. 15/01/2017 at 15:43 — Responder

    hahahaha que bela história Patrícia, dei umas boas risadas aqui hahaha.
    Mas bom que no fim das contas fez uma amizade né. Eu tbm detesto comer sozinho hahaha teria feito o mesmo no seu lugar.

    • 17/01/2017 at 17:53 — Responder

      Se tem a oportunidade de conhecer gente nova, porque comer sozinho, né?? hahhaha

  8. 15/01/2017 at 20:24 — Responder

    Ahhh, mais que bacana!
    Acontecimentos inesperadas que acabam virando histórias legais pra contar. Eu ia ficar com super medo da escuridão, mas acho que também não ia conseguir ficar com fome no quarto rs. No fim foi sua melhor escolha né?

    Beijo

    • 17/01/2017 at 17:54 — Responder

      Com certeza! Ficar no quarto com fome não ia dar. E ainda fiz um amigo novo, nem que por algumas horas.

  9. 15/01/2017 at 21:59 — Responder

    Parabéns pelo post leve e gostoso de ler! As melhores coisas são as que acontecem sem planejarmos, não é? abraços!

    • 17/01/2017 at 17:55 — Responder

      Obrigada, Marcia!
      É isso, temos que dar chance ao acaso de vez em quando. Nem tudo sai conforme o planejado.

  10. 16/01/2017 at 18:05 — Responder

    Sobre essas pessoas que aparecem do nada e fazem parte da história das viagens… não tem preço! 🙂 Essa é uma das coisas lindas de viajar <3

    • 17/01/2017 at 17:57 — Responder

      Super concordo!! Toda experiência memorável de uma viagem tem pessoas envolvidas. E é isso que fica depois: as lembranças e as amizades.

  11. 30/01/2017 at 17:42 — Responder

    Patrícia, adoro esses ~causos de viagem! rs
    Viajar transforma a gente em contadores de história né? E tem coisa melhor?! <3

    • 31/01/2017 at 12:44 — Responder

      Viajar deixa a gente sem palavras e depois nos torna contadores de histórias. =]

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