América do SulChilePuerto NatalesTrilha

Sobrevivente de Torres del Paine

6h30 estava de pé, me preparando para o dia. As 7h30 o ônibus passou na porta do hostel para nos pegar – eu, o indiano e as 2 americanas – e foram quase 3h até a entrada do parque. Após pagar a taxa de entrada e algumas orientações, mais um ônibus para o início da trilha. O objetivo era chegar a base das Torres del Paine, 3 torres de pedra lisa, impossíveis de serem escaladas. Seriam 9km de trilhas, subidas, escaladas até lá e depois, o mesmo caminho para voltar.

As 2 primeiras horas foram bem puxadas (o que eu já sabia que seria). Uma bela caminhada montanha acima, com algumas paradas para respirar e tomar água, até chegarmos em uma hosteria, onde pegamos uma mesinha para fazer um rápido almoço (não tinhamos muito tempo para parar). 

O objetivo do dia - Torres del Paine, lá no fundo

A primeira parte da trilha, longa subida

Uma pausa para respirar, tomar um gole de água e apreciar a paisagem

Alimentados, mais uma hora e meia por dentro da floresta e mais subidas. Nesse ponto, uma das americanas desistiu e voltou. Continuamos os 3, até o final da floresta. Nesse ponto começaria a parte mais difícil e uma corrida contra o tempo. Tínhamos 8h para fazer o caminho de ida e volta e já estávamos quase no final da 4a hora (considerando metade do tempo para ir e metade para voltar, nós perderíamos o ônibus de volta). Já estávamos tão longe que decidimos por ir e correr na volta. Eles foram na frente e eu achei que minhas pernas não iam aguentar até o final. Nunca fiz uma trilha tão difícil na vida (não que eu tenha feito muitas). 

O caminho no meio da floresta

Uma árvore um tanto quanto diferente

E se foram mais uma hora e meia de uma subida de quase 45 graus, alternada com caminhos de pedras (eu sou sedentária!!). Acho que eu estava com uma cara tão cansada, que as pessoas que estavam voltando passavam e diziam “força!”, “vc está quase lá”, “só falta meia hora”. Escutei só falta meia hora, por quase uma hora.
Chegou uma hora que eu estava sozinha no meio das pedras. Ninguém descendo, ninguém subindo, e eu não sabia para onde ir (todo o caminho era demarcado por trilhas, mas no meio das pedras não tem trilha. Só tem pedra). Minhas pernas não obedeciam mais e decidi por voltar e garantir o ônibus da volta. Uns 5 passos para trás, vi um senhor subindo. Ele devia ter seus 60 anos. Se uma pessoa com mais do dobro da minha idade consegue, eu também consigo! Virei e continuei a subir. Nessa hora, 2 pessoas estavam descendo e achei o caminho que deveria fazer! Encontrei também a americana que estava comigo no início.

A parte da trilha no meio das pedras

Ainda bem que não desisti. De onde eu estava, faltavam apenas uns 5 minutos (andar 5 horas para desistir nos 5 minutos finais não, né!). Lá também estava o indiano, tirando milhares de fotos. Ainda bem que não desisti mesmo, esse foi um dos lugares mais bonitos que já vi!  Com certeza é o highlight da viagem até agora!

Objetivo alcançado!

A recompensa! Lugar maravilhoso e ao vivo é muito melhor!


A paisagem e uns 10 minutos de descanso recuperaram parte das minhas energias para fazer os 9km da voltar, que foi muito mais tranquila, já que tudo que foi subida na ida, era descida no caminho contrário. O percurso de 5h para ir se tornaram 3h para voltar, e com uma pausa de meia hora antes de pegar o ônibus. Na última hora, tinha a sensação de estar flutuando, já nao sentia mais meus pés nem as pernas.

A caminhada da volta

As condições climáticas na Patagonia são bem imprevisíveis e extremas. Tudo muda com muita frequência. Ouvi dizer que os carros que passam na estrada devem andar com as janelas totalmente fechadas, pois o vento pode capotar os veículos. No dia anterior ao passeio, a mulher do hostel nos orientou “Estejam preparados para qualquer tipo de tempo. Sol, chuva, frio, vento, e inclusive neve. Vocês podem enfrentar todos eles em apenas um dia”. E é verdade, as pessoas que foram 2 dias antes pegaram chuva e neve nas trilhas. 
Demos grande sorte com o tempo. Não choveu e não nevou (o mais importante, pois as trilhas virariam caminhos de lamas, escorregadios e muito mais difíceis), e também não fez frio. Sol e céu azul durante todo o caminho e o único lugar que ventou mais foi na parte final, nas pedras e no mirador das torres (e duas vezes, o vento quase me levou pedra abaixo). 
O único ruim disso é que tive que carregar nas costas, o tempo todo, toda a roupa de frio, vento, chuva e neve que levei. A blusa mais leve que eu estava, tirei nos primeiros 5 minutos, e a calça debaixo só me fez passar calor o caminho todo.
Saldo do dia: 2 litros de água (metade deles de água do rio), uma mochila cheirando salame, dores no corpo todo, um belo bronzeado com marca de camiseta e relógio, um resfriado e uma bela história para contar!
Hoje, sem planos. Tirei o dia para me recuperar, arrumar as malas, e ler meu livro e meus emails. Talvez mais tarde eu vá dar uma volta no centro da cidade, procurar algum lugar para comer ou comprar algum souvenir. Hojé é o último dia no Chile, amanhã de manhã pego o ônibus para El Calafate, de volta a Argentina.

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *