Bento GonçalvesRio Grande do Sul (RS)

Os Caminhos de Pedra de Bento Gonçalves

Todos sabem que a região sul do Brasil tem uma forte influência alemã, visível em sua culinária, arquitetura, costumes e até nos rostos das pessoas. Porém, em 1875 a região de Bento Gonçalves foi povoada por imigrantes italianos que chegaram ao Brasil com a promessa de vida fácil e salames nascendo em árvores. Não foi bem isso que eles encontraram, mas sim uma região de mata virgem e nada desenvolvida, então restou a eles iniciar tudo.

Os imigrantes passaram a viver de suas plantações e começaram a construir casas de pedra, da forma como faziam na Itália. Essas casas demoravam anos para serem finalizadas e durante sua construção, chegaram a morar em tocas cavadas nas raízes das árvores. Com o tempo,  as casas passaram a ser construídas parte em madeira.

O local se desenvolveu em torno de uma estradinha de terra chamada de Linha Palmeiro, a principal via de acesso da região, o que garantia muito movimento e prosperidade do comércio local. Com a construção da rodovia 470, asfaltada, todo o fluxo foi desviado e a região passou por tempos difíceis com a diminuição do movimento e o comércio fechou as portas.

O Hotel Dall’Onder, provavelmente o maior da cidade, ajudou a restaurar algumas das casas e resgatar a cultura que vinha se perdendo. Em 1992 o roteiro Caminhos de Pedra passa a ser uma atração turística e em 2009 foi declarado patrimônio histórico e cultural do Estado do Rio Grande do Sul.

O nome Caminhos de Pedra vem das casas que são feitas em pedra (as mais recentes tem apenas a base em pedra e o restante em madeira), não se preocupe pois o acesso é bem fácil e a estradinha hoje está asfaltada. Cada ponto turístico está identificado por um número (que não entendi a lógica) e uma placa grande e fácil de visualizar, apesar de nem todas estarem bem conservadas e algumas com as letras bem apagadinhas já. Veja na foto abaixo como elas são:

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Cada casa tem uma especialidade: Casa dos Doces, Casa do Tomate, Casa das Pequenas Frutas, Casa da Tecelagem, Casa de Massas e Artesanato, Casa da Ovelha, Casa da Erva-mate, Salumeria (produção de salame), vinícolas, além de casas que são restaurantes e pousadas. A previsão é de aumentar a variedade dos produtos e quantidade de casas, para dados mais atualizados, confira o site  Caminhos de Pedra. Praticamente em todas você pode pegar um mapa que indica onde fica cada uma delas, assim consegue se planejar durante a visita.

Eu passei por quase todas (algumas estavam fechadas e também não passei nas pousadas e restaurantes) e  a organização varia muito. Algumas parecem uma lojinha improvisada feita na garagem da casa das pessoas, já outras são bem mais profissionais. No geral, as pessoas são bem simpáticas e receptivas e na maioria das casas tem degustação (eu não almocei nesse dia). Tem 3 delas que, na minha opinião, se destacam e se você for com o tempo apertado não deixe de passar nestas.

A Casa do Tomate tem, obviamente, produtos feitos de tomate. Um pouco de tudo que se pode imaginar – molhos, catchup, tomate seco, salgadinho e iguarias mais exóticas como geléia de tomate, bala de tomate, cerveja de tomate, cosméticos de tomate e por aí vai! Você pode degustar os produtos (veja foto abaixo) enquanto conversa com os donos, um casal super simpático. Eles são o diferencial da casa! Assim que chegar no local eles vão te receber de forma muito agradável e levar para uma salinha com uma “mapa” da região. Digo “mapa” porque ele é feito à mão, sem escalas, mas ilustra muito bem toda a história da região que é explicada com muitos detalhes pela senhora.

Eles também produzem refrigerantes naturais e explicam sua história. Anos atrás, os refrigerantes eram produzidos artesanalmente dentro das casas, enterrados para que fermentassem e um choque térmico tornava a bebida gaseificada. Por não ser  de tão fácil acesso, os meninos a usavam para pedir meninas em namoro, ou seja, as convidavam e ofereciam um refrigerante. Se ela aceitasse, eles começavam a namorar. Caso a menina tomasse mas não aceitasse o namoro, ficava mal falada e seria solteira para sempre.

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A Casa da Erva-mate fica bem no final da estrada e na verdade são duas casas: uma é para a produção e outra para venda. Provavelmente você vai para a casa de produção, onde a placa indica e que tem uma roda d’água na frente, mas as pessoas ficam na loja, atravessando a rua (pelo menos foi o que aconteceu comigo). Eles explicam todo o o processo de produção da erva-mate, mostrando os fornos para secagem e as máquinas que moem em funcionamento. Hoje elas operam com eletricidade, mas antigamente eram movidas pela força da água (por isso a roda d’água na entrada).

Atravessando a rua, na loja, uma aula sobre o chimarrão – todo o ritual para fazer e etiqueta para beber. Além da erva e de cuias e apetrechos, eles também vendem sorvete de erva-mate. O gosto da erva é forte, mas o sorvete é docinho e bem gostoso!

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A Casa da Ovelha é um passeio bem completo! Eles possuem tours em horários variados em que você pode ver o pastoreio das ovelhas, a tosquia, a ordenha, a corrida das ovelhas ou alimentar os filhotes. Agende-se para um deles. Dica: o tour das 15h30 é o mais completo, que inclui pastoreio, ordenha e alimentação dos filhotes (a programação pode sofrer alterações, confira no local).

Todos os tours começam com uma apresentação histórica bem detalhada que fala da imigração dos italianos para região, seu desenvolvimento, seu auge e tempos difíceis, até a revitalização e início do turismo, sempre com muito foco para a casa que hoje produz laticínios, doces e cosméticos, mas já foi hotel, bar e inclusive foi transportada por um caminhão e mudou de lugar. Logo depois, uma degustação de queijos, doces e iogurtes, a grande maioria feito com leite de ovelha, bem gostosos e sem lactose.

Seguimos para o pastoreio, onde um cão Border Collie conduz as ovelhas, sempre obedecendo os comandos dados em inglês pela guia. As ovelhas são bem dóceis e param ao seu lado para uma foto, porém vez ou outra você pode ser atropelado, então não fique no meio do caminho quando elas começarem a andar. Você também pode das os comandos, com ajuda da guia.

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A ordenha pode ser vista pelo vidro e depois feita na prática. Apertar as tetas de uma ovelha é uma sensação um pouco esquisita para quem vai pela primeira vez! Chega a hora de alimentar os filhotes, que são tão bonitinhos que dá vontade de ter uma ovelha de estimação. A ração deles é uma mistura de farelo de alfala/feno, farelo de milho, farelo de trigo, farinha de ostra, melaço em pó, óleo vegetal, farelo de girassol e sal mineral. Basta pegar um pouco nas mãos que os filhotes vem correndo para comer. Alguns deles podem morder um pouco (nada de mais) e confundir seus dedos com uma mamadeira.

Por fim, chega o final do passeio com uma visita a loja que vende os produtos de ovelha (aqueles que foram degustados) e outras coisas como bichinhos de pelúcia, tapetes etc. Eles tem uma loja online e fazem entregas em todo o Brasil.

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Saindo da estrada principal, há um caminho que leva a um mirante bem em frente a Vinícola Fornaizer. A paisagem é bonita e dá para ver uma cachoeira. Dizem que é um bom lugar para ver o por-do-sol, mas infelizmente não cheguei lá nesse horário.

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The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

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