Alice SpringsAustráliaOceania

O outback australiano

Quem acompanha esse blog sabe que eu morei na Austrália (faz um bom tempo) e que não escondo minha paixão pela terra dos cangurus. Apesar de ter passado meses lá, não consegui fazer tudo que queria. Quando eu tinha tempo para viajar estava sem dinheiro e quando juntei uma graninha já estava para voltar para o Brasil e faltou tempo. Uma ótima desculpa para voltar, não é?

Uma das coisas que não fiz e fiquei na vontade foi um tour pelo outback, o deserto australiano. E foi na minha segunda passagem pelo país, durante a minha volta ao mundo, que consegui conhecê-lo.

Esse era um dos itens da minha bucket list de viagens, que já compartilhei com vocês aqui no blog e está em constante atualização, e foi ticado com louvor após um dos tours que mais marcaram minha volta pelo globo terrestre. Foi um misto de conhecer um lugar que eu queria há anos com paisagens incríveis e pessoas sensacionais. Não poderia ter sido melhor.

 

Como chegar

Um grande deserto vermelho com monolitos e canyons definem o outback australiano, que não por acaso fica em uma região conhecida como Red Centre. Para chegar existem 3 opções. A mais fácil e confortável é voar até Alice Springs. A Qantas tem vôos diários saindo das principais cidades do país.

Outra opção é ir de ônibus, só tenha em mente que a Austrália é grande e as distâncias também, portanto é preciso um pouco mais de tempo. A Greyhound faz esse trajeto e também tem a opção do bilhete hop-on hop-off, que permite você parar quantas vezes quiser nas cidades no meio do caminho, desde que permaneça seguindo na mesma direção.

A última alternativa é ir de carro e aqui é necessário um bom planejamento antes de partir. A distância é grande e o centro da Austrália é um imenso deserto habitado por animais selvagens, ou seja, não há muitos lugares para parar e por vezes você terá a estrada só para você, por muitos quilômetros (esse é o relato que escutei de viajantes, preferi não arriscar a aventura de carro porque estava sozinha). É preciso saber onde parar, que sentido seguir e super importante: planejar a gasolina para não ficar sem combustível no meio do nada. Não custa lembrar que para dirigir na Austrália é obrigatório ter a carteira de habilitação internacional (informações no Detran do seu estado). Com certeza é a forma mais flexível e mais livre se conhecer o lugar, só tenha consciência do que está fazendo.

Ainda existe a opção do trem turístico, The Ghan, que liga Adelaide à Darwin, passando por Alice Springs e cortando todo o Red Centre. O bolso dói.

australia_red centre
Vista do avião. Faz todo sentido a região chamar Red Centre.

 

O que fazer e onde ficar em Alice Springs

Para ser sincera, Alice Springs não tem muito o que fazer, então não estenda muito seu tempo por lá. A cidade é pequena e tem basicamente pequenos comércios, restaurantes, mercado e hospedagens. Há alguns museus (não fui em nenhum) e do centro de informações partem tours guiados e grátis (mas no meu único dia livre o tour foi cancelado). Os aborígenes, povo original do país antes de ser colonizado pelos ingleses, estão aos montes na cidade e não raro você os verá bêbados na rua ou pedindo comida nos mercados. O preconceito dos australianos contra eles é grande.

Se você tiver alguns dias sobrando pode fazer algum tour pela região, caminhadas pelo deserto ou passeio de balão. As agências locais têm algumas opções de passeios.

Eu fiquei hospedada no Alice Springs YHA, achei ótimo e com bom preço. Quartos e banheiros espaçosos e limpos, uma piscina para refrescar e o mais importante: um bom ar condicionado.

 

Quando ir?

Prepare-se para os extremos do deserto! Eu fui em dezembro, no alto verão, peguei dias de 47°C e sem vento e sem umidade o sol dói ao bater na pele. Em compensação as noites não foram tão frias.

Está gostando desse artigo? Que tal curtir o Bagagem de Memórias no Facebook?


No inverno os termômetros podem chegar no negativo na madrugada, enquanto os dias continuam quentes. Se você quer menos variação de temperatura, primavera e outono talvez sejam mais adequados. Vale lembrar que as estações do ano na Austrália são iguais às brasileiras.

 

3 dias pelo outback – The Rock Tour

Bom, vamos ao que interessa. Como disse, eu não estava de carro e minhas opções ficaram restritas a me juntar a um tour. Veja bem, eu não sou contra esses tours em grupo, mas tem alguns que eu realmente não curto. Queria algo com um grupo pequeno e que não fosse tanto “agora vocês têm 10 minutos para tirar fotos desse lugar e ir ao banheiro” (e se eu não quiser usar o banheiro nessa hora?). Algo mais aventura, mais “dormir vendo as estrelas” e menos “camas confortáveis e ar condicionado”.

Fiquei entre duas opções: a Adventure Tours e The Rock Tour. Acabei optando pelo segundo porque era um pouco mais barato e o roteiro era praticamente o mesmo. Confesso que não achei o site deles muito organizado e não encontrei muitas referências, mas decidi arriscar mesmo assim. Fiz a reserva e o pagamento online e em seguida recebi um e-mail de confirmação.

Chegando em Alice Springs fui até o escritório deles, onde recebi todas as informações sobre o passeio. Além do itinerário detalhado, eles enfatizaram muito o que eu precisava levar em uma mala pequena (leve só o necessário. A mala grande pode ficar no hotel/hostel).

  • Sapatos confortáveis, de preferência um tênis ou bota de trilha
  • Lanterna
  • Protetor solar, óculos de sol e chapéu
  • Toalha e roupa de banho
  • Produtos de higiene pessoal
  • Roupas leves e confortáveis para o dia
  • Roupas quentes para a noite (se for no inverno)
  • Snacks (bolacha, salgadinhos, barra de cereal etc)
  • 3 litros de água
  • Dinheiro para compras extras

As refeições estão todas inclusas no valor do tour, assim como transporte, os guias e todo material para o acampamento. Eles alugam sacos de dormir (se você não tiver o seu), mas no verão é desnecessário, a não ser que você sinta muito frio a noite.

Atenção para os 3 litros de água. O passeio é no deserto, o calor é intenso e desidratação em um local isolado e com pouca estrutura não é brincadeira. Nada de levar uma garrafinha de 0,5l e achar que está tudo certo. Eles conferem se todos têm os 3 litros e se você não tiver, vai ter que comprar outra garrafa no caminho. Se não comprar não vai poder fazer as caminhadas.

Australia_water uluru
Desidratação no deserto não é brincadeira. Beba água sempre!

 

Dia 1

O dia começa cedinho, por volta das 5h da manhã, quando o mini-ônibus passa nas hospedagens de Alice Springs para pegar o pessoal. A estrada até a primeira parada é longa e esse é o tempo para conhecer os guias e o pessoal que irá passar os próximos dias com você. Geralmente cada grupo tem 1 guia, mas o meu tinha 2 e eles eram super animados.

A primeira parada é para almoço, banheiro e tem uma lojinha caso queira comprar uma bebida ou alguma outra coisa para comer. É nesse lugar que os guias providenciam as cervejas para as próximas 2 noites, então peça as suas quando eles passarem a lista dentro do ônibus.

O caminho segue até Kings Canyon, para uma caminhada guiada com paisagens incríveis e uma breve aula sobre a flora e fauna local. Os paredões de cor avermelhada esculpidos pelo tempo e pela erosão criam uma paisagem linda.

Cuidado ao ficar perto das bordas do canyon. Em 2014 uma turista foi tirar uma foto pulando, desequilibrou e caiu no buraco. Obviamente ela não sobreviveu, o resgate do corpo foi bem difícil devido à localização e estrutura do lugar e os guias foram advertidos a orientar seus grupos. E eles o fazem.

Kings Canyon, no deserto da Austrália
Kings Canyon, no deserto da Austrália

No caminho para o acampamento, paramos em um lugar cheio de árvores para procurar lenha e larvas. Sim, larvas gordas, grandes e com uma meleca amarela dentro. E você pode prová-las, no melhor estilo Timão & Pumba. Não para mim, mas o menino que comeu disse ter gosto de gema de ovo mole.

Chegamos no acampamento e os guias pediram ajuda para as meninas prepararem o jantar enquanto os meninos foram ajudar a acender a fogueira com a lenha que pegamos no caminho. Um ótimo fim de tarde comendo, bebendo cerveja e conversando com o pessoal em volta da fogueira e vendo o sol se por.

Antes de escurecer os guias nos apresentaram os swags, vulgo nossas camas pelas próximas duas noites. É algo como a evolução de um saco de dormir – zíper em toda a lateral e já vem com um colchão embutido (as versões mais evoluídas parecem uma mini barraca de acampamento. Se for no Google é isso que você vai achar). Para os dias frios, o saco de dormir vai por dentro do swag. E dormimos assim a céu aberto em um lugar cheio de animais selvagens? Sim! Toda comida deve ficar dentro do ônibus para não atrair os dingos (cachorros selvagens) e os guias têm lá seus meios para afastar outros tipos de animais.

Deitar no meu swag, no meio do deserto, onde não há luzes e a poluição da cidade grande e dormir sob o céu mais estrelado que já vi foi uma das coisas mais incríveis que já fiz na vida. De verdade, não dá para explicar. Uma pena minha câmera não ser boa o suficiente para fotografar o céu, mas a imagem ficará para sempre na memória.

australia_desert camping
Os swags e a fogueira do acampamento

 

Dia 2 

O segundo dia começou com o caminho para Kata Tjuta, um conjunto de formações rochosas, o mais importante da região depois do Uluru. A parada foi seguinte foi no Aboriginal Cultural Centre, um pequeno museu para conhecer um pouco mais sobre a cultura aborígene. Na sequência, fomos para o local do acampamento para almoçar e para um banho de piscina. Um refresco nesse calor é bem-vindo!

Depois fizemos o Mala Walk, uma das caminhadas do Uluru para aprofundar os conhecimentos na cultura local, além de proporcionar mais paisagens. O Uluru (nome aborígene) é o segundo maior monolito do mundo, também conhecido como Ayers Rock, o nome inglês dada a essa formação. Com mais de 300m de altura e 8km de diâmetro e de um tom avermelhado intenso, é com certeza o ponto alto do passeio. Fendas e cavernas compõe o local que é considerado sagrado pelos aborígenes e onde  encontramos pinturas rupestres nas paredes.

Australia_mala walk kata tjuta
Pinturas rupestres no Mala Walk, Uluru.

É possível escalar o Uluru, embora a prática não seja recomendada. Primeiro em respeito aos aborígenes, por ser um monumento sagrado. O segundo motivo é pela subida ser extremamente íngreme, lembrando que o clima do deserto não é o mais favorável para isso e aconteceram algumas mortes pelo excesso de esforço físico. Além disso, a escalada está degradando o monolito e precisamos cuidar do que a mãe-natureza deixou no planeta, certo?

Depois da caminhada seguimos para o ponto de observação do Uluru, onde aguardamos com boas cervejas geladas. Justo depois de um dia de muito sol e calor extremo. O por do sol no deserto é sempre um momento mágico, ver o Uluru mudando a tonalidade de vermelho conforme os minutos passam não tem preço. Esse é o momento para as melhores fotos do passeio.

australia_rock group
O grupo em frente ao Uluru (ou Ayers Rock)

Enquanto apreciávamos o espetáculo, os guias estavam ocupados preparando nosso jantar. Depois de alimentados, voltamos para o ônibus e seguimos em direção ao acampamento da noite. A essa altura o grupo, que era formado por pessoas de todo canto do mundo, já estava bem entrosado. Tinha gente do Canadá, Suíça, Alemanha, Dinamarca, Coréia do Sul, Itália, Israel e Brasil. No caminho, o guia colocou uma música dos Backstreet Boys e todas as meninas cantavam loucamente enquanto os meninos, a minoria do grupo, diziam “parem com isso”. Não sou super fã da boyband, mas não posso negar que eles fizeram parte da minha adolescência. Engraçado ver que apesar de tantas diferenças culturais, parece que em outros lugares do mundo não foi muito diferente.

Já no acampamento, hora do banho, de muita conversa e das últimas cervejas antes de dormir no swag olhando aquele céu completamente estrelado novamente.

 

Dia 3

O último dia do tour começou cedo, antes do sol raiar, pois fomos vê-lo nascer por trás do Uluru. Sim, eles de novo – o sol e o monolito fazem uma dupla e tanto.

Australia_uluru sunrise
O nascer do sol e o Uluru

Depois desse presente que a natureza nos dá, voltamos para as caminhadas do Uluru. Dessa vez foi o base walk, uma trilha plana e bem demarcada de 10,5 km ao redor do monolito. Foram cerca de 3 horas e meia para completar o percurso e no caminho e passamos por outras cavernas e pinturas rupestres. É possível ver nas pedras as evidências da lenda da batalha de Liru e Kuniya.

Por fim, chega a hora de começar o longo caminho de volta. Uma das paradas foi na Camel Farm, onde pudemos fazer um passeio de camelo. É opcional e rapidinho, mas uma experiência diferente. O valor foi de 7 AUD. Tivemos ainda uma parada para o almoço antes de voltar para o YHA, em Alice Springs, no final da tarde. A noite fomos todos para um bar para o último encontro e confraternização do grupo, que tem descontos no cardápio do jantar.

Australia_lenda liru kuniya
Placa com a explicação da lenda de Liru e Kuniya mostra as evidências no Uluru

 

Considerações

  • Eu recomendo o tour, foi um dos melhores tours que fiz durante minha volta ao mundo. Os grandes responsáveis por eu ter gostado tanto foram os guias e as pessoas do grupo (não há como controlar isso, não posso garantir que a sua experiência será a mesma).
  • Se você optar por fazer esse tour, alinhe sua expectativa. Como eu disse, eu amei, mas não é um passeio super confortável. Muito tempo de deslocamento dentro do ônibus e a comida é simples. Eu não passei fome, mas não espere um banquete nas refeições.
  • Reforço mais uma vez a questão da água. Beba muito líquido para evitar a desidratação, mesmo que não esteja com sede. Protetor solar é fundamental também. O sol é forte e o calor extremo.
  • Reforço também a questão da mala pequena – uma mochila de ataque. Leve apenas o necessário porque não há muito espaço para bagagens no ônibus.
  • Eu fiz o passeio saindo e voltando para Alice Springs. Existem outros itinerários que começam ou terminam em Ayers Rock (a cidade). O conteúdo do passeio praticamente não muda.

 

* Esse post não foi patrocinado. Paguei o tour normalmente e indico porque gostei do serviço.

 

Leia também:

Primeira vez na Austrália?

Highlights da Austrália

Memórias da Viagem: Sydney (por Michel Zylberberg)

Quero fazer intercâmbio!

10 dicas para passagem aérea barata

 

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

4 Comments

  1. Murilo
    21/10/2017 at 15:45 — Responder

    Boa tarde, Patricia!

    Vi que você foi na mesma época (ou quase) que eu pretendo ir: no verão! A diferença é que vou em janeiro. Estou preocupado quanto ao clima: o calor absurdo, ao que tudo indica, não deve ser considerado como um impedimento. Você recomendaria mesmo assim ou acha que vale trocar e conhecer outro local na Austrália?

    Obrigado!

    • 28/10/2017 at 10:47 — Responder

      Murilo,

      A Austrália tem muitos lugares incríveis para conhecer. O outback definitivamente é um deles.
      Eu fui em meados de dezembro. A diferença de temperatura não deve ser tão grande para janeiro, acredito.
      É calor sim e muito seco (deserto, né?). Eu cheguei a pegar dias com 47 graus (excelente para lavar roupa, secam em alguns minutos! hahahaha).
      Não acho que seja um impeditivo, mas importante ter algumas precauções: muito protetor solar e beber água sempre. Tenha sempre uma garrafinha abastecida para onde quer que vá.
      A vantagem do verão é que as noites são agradáveis e a diferença de temperatura não é tão extrema.

      Qualquer dúvida é só falar!

  2. 14/01/2018 at 20:54 — Responder

    Nossa… quantas dicas boas. Parabéns! Muito obrigado pela ajuda. Este blog realmente vem me ajudando bastante. Grande abraço

    • 19/01/2018 at 21:57 — Responder

      Obrigada Rodrigo!
      Muito bacana saber que estou ajudando. =)

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *