ÁsiaJapão

O Japão no Brasil

Judô, karatê e outras artes marciais. Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Power Rangers e outras séries de TV. Que tal um shiatsu, uma massagem para relaxar um pouco? Ou uma cantoria no karaokê no final do dia com os amigos para animar a noite? Você já reparou na influência que a cultura japonesa tem na sua vida? Isso é resultado de 107 anos de história, sofrimento, superação e muito trabalho.

Dia 18 e junho de 2015, comemoração dos 107 anos da imigração japonesa no Brasil, com cerimônia solene e tudo mais. E a celebração se estendeu por todo país, muito forte na colônia nipônica (é claro), mas com abrangência que vai além dela. Tem até uma série produzida para TV e veiculada em rede nacional, em comemoração à data.

Hoje, estima-se que mais de 1,5 milhões de descendentes de japoneses vivem no Brasil, a maioria concentrada nos Estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso. Esse número vem crescendo e o nosso país tem a maior comunidade japonesa do mundo fora do Japão.

 

Por que os japoneses vieram para o Brasil?

Durante a Era Edo (1603 – 1867) o Japa?o vivia sob o poder feudal do shogunato Tokugawa, que adotou medidas ri?gidas e conservadoras como o fechamento dos portos e a proibic?a?o do cristianismo, estabelecendo uma poli?tica isolacionista estrangeira e uma economia baseada na agricultura. No ano de 1868, com o fim do Governo Tokugawa e a Restaurac?a?o Meiji, o Japa?o deixa de ser um Estado feudal para iniciar grandes mudanc?as. A economia passa a ser manufatureira e industrial e o Japa?o abre as portas para o ocidente, iniciando um interca?mbio cultural e econo?mico.

Nessa mesma e?poca a lavoura cafeeira crescia cada vez mais no Brasil e, com a extinc?a?o do tra?fico de escravos, em 1850, e a Lei A?urea em 1888, que aboliu a escravida?o, o pai?s sofria com a falta de ma?o-de-obra. Em 06 de novembro de 1907 o governo de Sa?o Paulo assinou um contrato com a Companhia Imperial de Emigrac?a?o do Japa?o (Kokoku Shokumin Kaisha), que previa a vinda de 3 mil japoneses ao Brasil para trabalhar nas lavouras de cafe?.

Em 27 de Abril de 1908 o primeiro navio trazendo imigrantes japoneses para o Brasil, o Kasato Maru, parte do porto de Kobe com 781 pessoas com o objetivo de enriquecer em cinco anos e retornar a? terra natal para uma vida economicamente esta?vel ao lado de seus familiares que ficaram esperando no Japa?o. Eles chegam ao Porto de Santos em 18 de junho de 1908, apo?s 52 dias de viagem.  Em 1910 parte a segunda leva de imigrantes, 906 pessoas a bordo do navio Ryojun Maru. Ate? o final da de?cada de 1970 cerca 250 mil imigrantes chegaram ao Brasil, em sua maioria agricultores.

Kasato Maru
Kasato Maru, o primeiro navio a trazer imigrantes japoneses para o Brasil. (Foto: Wikimedia Commons)

 

Uma história de superação

A promessa de vida próspera e dinheiro farto não vingou. Os japoneses partiram enta?o para um novo objetivo, bem diferente daquele inicial de voltar ao Japa?o para reconstruir suas vidas: o processo de adaptac?a?o ao seu novo pai?s, o Brasil. Compraram pequenos lotes de terra para cultivar o pro?prio cafe? e tambe?m outros produtos como arroz, milho, tomate, feija?o e batata. O dinheiro conseguido foi utilizado para expandir o terreno e dessa forma comec?aram a se formar os primeiros nu?cleos de colo?nia japonesa no interior do estado de Sa?o Paulo.

Em 1929, com a quebra da bolsa de valores de Nova York, a plantac?a?o de novos cafezais foi proibida pelo governo de Sa?o Paulo, com o intuito de proteger os antigos fazendeiros. Para fugir da lei, os japoneses foram para o norte do Parana?, onde iniciaram outra cidade, juntamente com outras 33 nacionalidades, e assim surgiu Londrina, a pequena Londres. Ale?m de Parana? e Sa?o Paulo, formaram colo?nias tambe?m no Mato Grosso e ate? na Amazo?nia.

A expansa?o dos japoneses no Brasil caminhou bem ate? a II Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, quando o mundo se dividiu em dois, formando o grupo dos pai?ses “Aliados” (Estados Unidos, Gra?-Bretanha, Franc?a, Unia?o Sovie?tica e China) e dos pai?ses do “Eixo” (Japa?o, Ita?lia e Alemanha). O Brasil une-se ao lado Aliado e estando do lado oposto ao Japa?o, os imigrantes sofreram as conseque?ncias. A concentrac?a?o nipo?nica existente no bairro da Liberdade, em Sa?o Paulo, foi desfeita e aqueles que moravam no litoral tiveram que se mudar às pressas para o interior, pois acreditava-se que eles poderiam fornecer informac?o?es aos alema?es que circundavam a costa brasileira. O uso e ensino da li?ngua japonesa foram proibidos, inclusive em conversas, assim como as transmisso?es de ra?dios japonesas e as corresponde?ncias entre os dois pai?ses. Qualquer manifestac?a?o cultural era sino?nimo de crime, portanto todas as festividades foram suspensas durante esse peri?odo. Nessa época surgiu a Shindo Renmei, uma organização que acreditava que o Japão tinha vencido a guerra e punia de forma violenta aqueles que diziam o contrário, história retratada no filme Corações Sujos, de Vincente Amorim.

Ao final da guerra e apo?s as bombas ato?micas em Hiroshima e Nagasaki, o Japa?o estava destrui?do e vivia mais uma vez o cena?rio de mise?ria e superpopulac?a?o, o que os forc?ou a retomar o processo migrato?rio. Ao total foram mais de 53 mil imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil no po?s-guerra, mas desta vez com a certeza que jamais voltariam ao Japa?o. A partir de enta?o a colo?nia nipo?nica comec?ou a se estruturar novamente, na qual novos come?rcios foram abertos e surgiram as primeiras empresas no setor alimenti?cio, para suprir a saudade dos produtos japoneses.

Os primeiros imigrantes trabalharam em fazendas
Os primeiros imigrantes trabalharam em fazendas (Foto: Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil)

 

A influência japonesa no Brasil

A cultura japonesa hoje se encontra espalhada pelo mundo, e o Brasil na?o e? excec?a?o. Apo?s mais de 100 anos, as marcas socioecono?micas e culturais deixadas pelos japoneses sa?o visi?veis e algumas pra?ticas ja? esta?o tão integradas e enraizadas no nosso dia-a-dia que nem percebemos a relação. Produtos praticamente desconhecidos no Brasil como os casulos de bicho da seda e o cha? preto foram introduzidos pelos imigrantes e ate? as maiores empresas se renderam a influe?ncia nipo?nica, utilizando o 5S como pra?tica de qualidade e seguranc?a. Artes, tradições e até a escrita estão presentes em objetos de decoração nas casas, sem falar nas marcas de carros que circulam pelas ruas ou nos eletrônicos que utilizamos diariamente.

Está gostando desse artigo? Que tal curtir o Bagagem de Memórias no Facebook?


A culina?ria hoje ja? foi incorporada ao paladar brasileiro e e? um dos principais divulgadores da cultura no pai?s, agradando na?o so? o paladar, mas tambe?m aos olhos. E? sino?nimo de chique, de sofisticado, ocupa um lugar nobre na gastronomia brasileira e e? refere?ncia quando se trata de longevidade e alimentac?a?o light por ser baseada no arroz e rica em soja, algas, legumes, verduras e muito peixe. Na?o podemos esquecer o cha? verde, tambe?m de origem oriental, e conhecido pelo seu poder de emagrecimento, cura do ca?ncer e pelos seus poderes bene?ficos ao corac?a?o e pele.

As influe?ncias va?o ale?m da culina?ria e chegam ao ramo da sau?de, com te?cnicas de relaxamento e terapias alternativas como o shiatsu, anma, ventosaterapia, moxabusta?o, ofuro?, reiki e meditac?a?o. Estas deixaram de ser exo?ticas e cercadas de misticismos e ja? existem milhares de adeptos entre os brasileiros.

As artes marciais sa?o muito mais que um esporte. Além de ser um meio de manter a forma ou garantir a defesa pessoal, elas buscam o aperfeic?oamento do cara?ter e carregam a filosofia oriental e o cultivo da mente e do espi?rito. O judo, o karate, kendo, aikido e ninjutsu chegaram ao Brasil com os imigrantes e eram praticados apenas pelas pessoas da comunidade nipo?nica.

A cultura pop chegou depois, mas se tornou muito popular entre os brasileiros, na?o so? na comunidade nipo?nica, mas tambe?m entre os na?o descendentes. Introduzida com os quadrinhos e animac?o?es japonesas, os mangás e anime?s, e com as se?ries super sentais (Jaspion, Changeman, Power Rangers etc), hoje dominam também a área de games, sem falar na influência em brinquedos, roupas, eventos etc.

Maneki neko
Maneki neko, o gatinho que traz sorte e dinheiro (Foto: freeimages.com)

 

Para aprender com o Japão

Eu vivo ouvindo coisas do tipo “a concorrência para essa prova está muito alta, tem uma japonesa na minha sala” ou “isso é impossível de fazer! Faz você, você é japa”. Quem é descendente e nunca ouviu algo do tipo que atire a primeira pedra.

O fato é que tem muito nikkei que é inteligente sim, mas tem outros que dão até vergonha. Assim como tem muito não-oriental quem tem um QI avantajado e dão de 10 a 0 nos japas por aí. Isso foi só um rótulo criado e disseminado por ai, não por acaso.

Os primeiros imigrantes sofreram um bocado. Trabalharam arduamente nas fazendas, quase como escravos, e foram privados de sua cultura. Deram a volta por cima e, buscando uma vida melhor para os seus filhos, investiram na educação. Até hoje vemos os japas se destacando nos vestibulares e nas melhores faculdades do país.

Disciplina e investimento em educação fazem parte do DNA japonês e isso, que foi trazido pelos primeiros imigrantes, ainda permanece firme e forte lá no Japão. Some à este fato a cidadania, respeito e senso coletivo de se viver e terá um povo que dá exemplos para o mundo. Quem não lembra da cena deles ajudando a limpar as arquibancadas durante a Copa do Mundo? Ou da organização pós tsunami + terremoto + acidente nuclear em 2011? Eu falei sobre esse assunto no post Brasil: como deveria ser, que escrevi para o blog Rodando pelo Mundo, mas mais gente compartilha da mesma opinião. O Jornal Nacional também veiculou uma reportagem recente falando sobre a educação japonesa (veja aqui) e tem outra da Globo, de 2014, que mostra a rotina das escolas no Japão (veja aqui).

 

 

Quer saber mais sobre o Japão?

10 coisas que você precisa saber antes de ir ao Japão

Roteiro: Japão em 15 dias

Hiroshima, a luta pela paz mundial

Seja maiko por um dia!

Descobrindo o Red Light District de Osaka, sem querer

e mais…

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *