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O dia que dividi a cama com um desconhecido

Histórias bizarras de viagem, quem não tem? Eu tenho algumas e essa é mais uma delas.
Eu imaginava que passaria por alguns perrengues e teria que fazer algumas coisas “fora do meu normal” viajando sozinha pelo mundo, mas passar a noite com um estranho na mesma cama com certeza não fazia parte do que eu havia imaginado. Surpresas acontecem!

Eu estava em Vientiane, a capital do Laos, tinha acabado de acordar e pedi meu omelete com torradas, manteiga e chá. Se tem uma coisa que todo lugar do mundo deveria ter são os hostels com diária de 4 dólares e café da manhã incluso. Tinha um lugar em uma mesa em que já havia uma pessoa e perguntei se podia me sentar ali para minha refeição matinal. Ficamos conversando enquanto comíamos e foi assim que conheci o italiano barbudo que foi para Tailândia estudar massagem, estava viajando pelo sudeste asiático e do qual não lembro o nome e aqui vou chamar de Fred.

Como toda conversa de viajantes começa por de onde você é e quais são seus planos de viagem, descobrimos que ambos pretendiam ir para Luang Prabang no dia seguinte, nenhum dos dois sabia exatamente como fazer isso e muito menos queriam gastar muito no percurso. Tudo o que eu sabia é que essa viagem seria de ônibus e relativamente longa. Também sabia que poderia comprar a passagem direto na recepção do hostel, mas já tinha ouvido falar que ficaria mais caro assim, então decidimos descobrir tudo isso juntos durante um passeio pela cidade.

Saímos Fred e eu do hostel com um mapa na mão e caminhamos até a rua principal, onde com certeza encontraríamos dezenas de agências de turismo e pontos de informação. Passamos apenas vendo os preços, que eram bem fáceis de visualizar: uma placa escrita a mão na frente de cada estabelecimento. Escolhemos o lugar mais barato e entramos para perguntar:

– Você vende passagem de ônibus para Luang Prabang?

– Vendo sim, para quando seria?

– Para amanhã

– Para qual horário?

– Quais os horários disponíveis?

– Tenho estes (o senhor nos mostrou uma tabela com umas 6 ou 7 opções de horários e seus respectivos preços)

– Quanto tempo de viagem?

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– Cerca de 10 horas

– Como é o ônibus noturno?

 

Para viagens com mais de 6 horas, eu considero fortemente a opção de fazê-la a noite por dois motivos. O primeiro é que você não perde o dia viajando e se passar o percurso dormindo nem vai sentir o tempo passar. O segundo é que vai pagar um dia de hospedagem a menos. É claro que existem outros fatores a serem considerados, mas nesse caso valia a pena pegar o ônibus noturno, já que ele era pouca coisa mais cara que os outros (a diferença era menos que mais uma diária no hostel).

Pedimos mais informação e ele nos mostrou uma foto que era exatamente igual aos ônibus do Vietnã, que eu já havia viajado algumas vezes e nunca tive problemas. Poltronas individuais e confortáveis que quase parecem uma cama, ar condicionado e banheiro. Por mim estava ok! O Fred nunca tinha viajado nesses ônibus, mas também topou. Dissemos que voltaríamos no final do dia para comprar as passagens (vai que a gente encontra um lugar melhor durante o dia, né?)

Sleeping bus do Vietnã
Sleeping bus do Vietnã

Saímos da loja e seguindo o mapa fomos para o Arco do Triunfo, um dos principais pontos turísticos da cidade. O monumento, também conhecido como Patuxai, foi construído em homenagem àqueles que lutaram pela independência do Laos, antiga colônia da França. Apesar de ser uma cópia do conhecido irmão francês, sua arquitetura é bem diferente. Subimos até o topo. O interior é todo decorado com imagens budistas e lá de cima a vista panorâmica da cidade é bonita.

arco do triunfo-vientiane
O Arco do Triunfo e Vientiane

De lá, tentamos chegar em algum lugar que não lembro o que era, mas que também nunca encontramos. Nos perdemos e a tentativa de perguntar qualquer coisa para os locais foi hilária. Entramos em uma loja de ferramentas, em uma de roupas e em um café para  pedir indicações de caminho. Fora da zona turística ninguém sabe absolutamente nada de inglês e algumas pessoas fugiram do Fred quando ele entrou na loja e começou a falar. Teve um senhor que até parou para escutar, olhou para minha cara e começou a falar qualquer coisa no idioma local, achando que eu ia entender (fato comprovado: eu tenho cara de sudeste asiático). Resumindo a história, desistimos de ir a esse tal lugar, fomos almoçar e começamos a procurar o caminho de volta. Quem salvou a tarde foi o mapa offline do meu celular (veja os apps que podem salvar vidas em viagens). Localizados novamente, voltamos na mesma agência para comprar a passagem do ônibus noturno para o dia seguinte. De volta ao hostel, nos juntamos a um grupo de pessoas que estavam conversando e foi risadas e cerveja madrugada a dentro.

Na noite da viagem, pegamos um tuk-tuk até a rodoviária e esperamos uma infinidade. Na dúvida se teríamos uma parada para jantar ou não, fomos ao restaurante de lá mesmo, que não era nenhuma maravilha (e muito menos limpo), mas a mocinha que nos atendeu era a simpatia em pessoa. Chegou a hora de embarcar, colocamos as malas no bagageiro e subimos. Meu espanto ao ver a parte interior do ônibus:

– Eles têm camas de verdade dentro do ônibus! E são beliches de casal!

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Beliches de casal dentro do ônibus

E mais. As camas eram super pequenas e ainda tivemos que dividi-la com as nossas mochilas menores e a sacolinha com nossos sapatos (em muitos lugares na Ásia é preciso entrar descalço, inclusive nos ônibus de viagem). Para ter uma ideia do tamanho da cama veja a foto abaixo e leve em consideração que asiáticos são pequenos e bem magros (eu chutaria que os homens, no geral, não tem mais de 1,70m e pesam cerca de 60 kg). Veja a posição do travesseiro, que está em pé porque não cabem os dois em sua posição normal.

Ah! E não tinha banheiro.

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Nossos vizinhos de cama: os monges

Vou dizer que os primeiros momentos dentro desse ônibus foram muito divertidos! A gente olhava um para a cara do outro e morria de rir. Tiramos fotos e todos os outros estrangeiros faziam o mesmo, enquanto os locais já estavam deitados e quase dormindo.

Em seguida veio o momento “tentar achar a melhor posição para deitar”. Como disse, a cama é pequena e não cabiam os ombros das duas pessoas sem que um ficasse por cima do outro. O melhor que conseguimos foi de ladinho, quase uma noite de conchinha. Sem dizer que os pés foram em cima das mochilas.

Ainda bem estávamos na cama de cima da beliche. Imagino que claustrofóbicos na cama debaixo iriam sofrer um bocado nessa viagem.

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Nosso momento diversão e surpresa com o ônibus

A viagem começou, as luzes se apagaram e o negócio era tentar dormir. No começo consegui, mas acordei com uma vontade desesperadora de ir ao banheiro. Minha bexiga parecia que ia explodir. Estava quase levantando e pedindo para o motorista parar para eu fazer xixi na beira da estrada mesmo, quando de fato o ônibus parou. Era a parada para o jantar!

Peguei meu sapato e um pacote de lencinho, desci correndo (fui a primeira pessoa a descer do ônibus) e fui perguntar onde tinha um banheiro. É claro que o banheiro era pago e as condições de higiene deixavam a desejar. Era um banheiro local, aquele buraco no chão com um baldinho de água do lado, fedido e com pouca luz, mas em momentos de desespero não dá para exigir muito. Voltei para o ônibus com a maior sensação de alívio do mundo, enquanto as pessoas com cara de sono ainda estavam descendo.

A opção de janta era comida de rua de barraquinha de beira de estrada. A cara não era das piores não, apesar de ter coisas estranhas entre as opções. Como já tinha comido na rodoviária, não comprei nada e sai com a impressão de que o restaurante que jantamos nem era tão sujo assim…

O resto da viagem foi tranquilo, todo de conchinha e sem desesperos. Teve mais uma parada para banheiro, mas eu não precisei descer. Chegamos em Luang Prabang cedinho, com o dia já claro. Fomos ao banheiro da rodoviária e na saída uma menina chamada Bella veio falar com a gente, perguntando se tínhamos lugar para ficar. Disse que sim, achando que era uma pessoa que ia tentar nos empurrar para um hotel em que ela ganhasse comissão (mas na verdade eu tinha reserva mesmo).

Ela estava negociando o valor do tuk-tuk com o motorista e procurando pessoas para dividir o trajeto. Fui procurar o nome do hostel que tinha reservado, quando ela me mostrou um papel com o nome do lugar que ela ia, que foi uma indicação de amigo. Estava tudo escrito no idioma local e eu não entendi nada. Mostrei o endereço para o motorista para saber se os lugares eram próximos, mas ele não sabia ler letras romanas. Uma pequena dificuldade de comunicação.

A Bella é tailandesa, fala inglês e entende o idioma do Laos. Foi peça fundamental nesta negociação (e em outras). No fim, descobrimos que a indicação dela e o hostel que eu tinha reserva eram o mesmo lugar, ela fez uma super negociação com o motorista, pagamos super barato pelo tuk-tuk que nos deixou na porta do hostel e assim terminou nossa viagem de Vientiane para Luang Prabang. Ah, e também foi a primeira e última noite que eu e o Fred dividimos a mesma cama.

 

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* Imagem destacada: Ambro, freedigitalphotos.net

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

24 Comments

  1. 30/12/2016 at 12:10 — Responder

    hahahaha adorei sua história, Patricia!
    Que situação, né? Ao menos você já tinha trocado algumas palavras com ele.
    Imagina se fosse uma pessoa super desconhecida e fedorenta? Jesus!

    • 02/01/2017 at 14:16 — Responder

      Se fosse uma pessoa fedorenta ia ser terrível!!! Nem quero pensar… hahhahaah

  2. 30/12/2016 at 12:22 — Responder

    Ah meu Deus!, Ri muito agora! Que situação!!!
    E eu que achava que minha pessima experiencia num trem noturno de Viena pra Hannover tinha sido punk (duas beliches apertadissimas que dividimos com outro casal desconhecido, quase encostando nosso nariz no teto do trem kkkk)
    Mas vc é super corajosa! Parabéns pelo espírito aventureiro!

    • 02/01/2017 at 14:19 — Responder

      Cada situação que a gente enfrenta em viagens, né??
      Quanto mais aventuras, mais histórias para contar! =]

  3. Caren Sales
    30/12/2016 at 13:42 — Responder

    Que demais essa história !!!
    Rendeu um lindo e instigante post viu?
    Arrasou

    Um beijo

  4. 30/12/2016 at 16:48 — Responder

    Patrícia, que viagem!!! Fiquei imaginando tudo e ri alto olhando a caminha! Mas são esses tipos de perrengue que fazem das viagens, aventuras!! Que legal! Gostei de vários posts aqui. Já vi que terei muita leitura pela frente. Bjs

    • 02/01/2017 at 14:20 — Responder

      Que bom que gostou, Márcia!!
      Histórias assim não faltam.

  5. 30/12/2016 at 21:25 — Responder

    Isso que eu chamo de história de viagem!!! Parabéns, muito bem relatado!!

  6. 30/12/2016 at 22:13 — Responder

    Me acabei de rir, mas essas experiências não são para qq um não kkkk

    • 02/01/2017 at 14:21 — Responder

      ahahahhahaa
      Concordo! Tem que saber levar na brincadeira e se divertir em cada situação.

  7. Queria ser mais livre assim!
    rs
    Adorei a tua história e, de certa forma, ainda bem que você conhecia o Fred. Pensou se você dividisse aquela caminha com alguém totalmente desconhecido e com o dobro do peso do Fred?
    😉

    Bom 2017 para você e muitas novas aventuras!

    • 02/01/2017 at 14:23 — Responder

      Ainda bem, né??
      Gordinhos e grandões sofrem demais nos ônibus do sudeste asiático. Tudo é sempre pequeno.

      Obrigada! Ótimo 2017 pra vc tbm!

  8. 30/12/2016 at 23:08 — Responder

    Oi Patrícia,
    Que história louca hein!? Mas muito legal.
    A melhor parte da viagem são as his’torias que a gente carrega p resto da vida!
    Abs, Marlise

    • 02/01/2017 at 14:24 — Responder

      Com certeza, Marlise! =]

      Por mais viagens que deixem aprendizados na bagagem e histórias assim na memória.

  9. 31/12/2016 at 00:19 — Responder

    Que experiência doida kkkkk Parabéns pelo post!
    Feliz Ano Novo

  10. 31/12/2016 at 06:45 — Responder

    Hahaha muito boa a história! Essas situações no mínimo inusitadas fazem valer a pena pra dar boas risadas depois. E no sudeste asiático isso acontece com frequencia ne?

    • 02/01/2017 at 14:26 — Responder

      O sudeste asiático é cheio e histórias e experiências que marcam. Por isso que eu amo esse cantinho do mundo. <3

  11. 31/12/2016 at 12:56 — Responder

    Que experiência inusitada, ainda bem que deu tudo certo!
    Desejo muitas viagens em 2017! Abraço!

  12. 01/01/2017 at 16:39 — Responder

    Tô rindo muito com essa história! Coisas que só viajar pelo mundo faz por você, né? Uma experiência pra rir muito e contar pra todo mundo. N-U-N-C-A imaginei que uma viagem de ônibus pudesse ser assim. E imagino que teria mesmo sido claustrofóbico ficar no beliche de baixo 😉

    • 02/01/2017 at 14:36 — Responder

      Digo que eu tbm não esperava por uma viagem assim… hahahaha.
      Agora virou história para contar.

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