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O desafio de lavar roupa

É aquela velha história… quem sabe inglês não tem problemas de comunicação em qualquer lugar do mundo, certo? Na verdade, não é bem assim. Não posso negar que esse idioma ajuda muito e que geralmente encontramos alguém que o fale mesmo que a língua local seja outra, mas tem lugares que a maioria das pessoas simplesmente não o entende. E ai, você faz o que? Acumula histórias de viagem para contar depois.

Eu não pensei que fosse ter problemas de comunicação na Coréia do Sul. Conheci alguns coreanos durante minha volta ao mundo e em outras viagens e eles tinham um inglês ok para se comunicar. É claro que em cidades do interior, por exemplo, eu não esperava encontrar pessoas com um inglês fluente, mas em Seoul e em Busan, as duas maiores cidades do país, e em Jeju-do, um lugar super turístico, achei que fosse ser mais fácil. Minha saída foi perguntar tudo o que precisava nos locais onde me hospedei ou recorrer às lojas de conveniência (tipo Seven Eleven) ou redes internacionais (tipo Starbucks) onde a probabilidade de alguém  me entender era maior (nem sempre isso acontecia). Não tive sucesso em nenhum restaurante, loja, ônibus e nem com os jovens andando pela rua. Mesmo em atrações turísticas tive que recorrer ao mimiquês e esse é universal. 🙂

Caso você não saiba, o alfabeto coreano não utiliza as mesmas letras que o lado ocidental, tudo é escrito com tracinhos e bolinhas que não fazem o menor sentido para mim (é algo completamente diferente das letras chinesas e japonesas também). Aquelas salvadoras placas escrito “pizza”, “chicken”, “bus”, “taxi” etc não são nada comuns também.

Não imaginei que algumas tarefas simples e do nosso dia-a-dia pudessem se tornar uma dessas histórias. Lavar roupa virou um desafio!

 

Eu estava em Seoul, hospedada na casa de um coreano via Couchsurfing e em um bairro super residencial. Ele tinha um bom inglês, abriu a casa toda pra mim e me ajudou no que pode. Criou uma senha para eu ter acesso livre à entrada do apartamento (lá eles não usam chaves para abrir as portas, elas se abrem com senhas numéricas digitadas em um teclado parecido com um telefone) e disse que eu podia comer qualquer coisa que estivesse na geladeira dele.

Um dia eu disse que precisava lavar roupa. Crente que ele ia me ensinar como usar a máquina de lavar dele, o que ele fez foi me mostrar no mapa o local onde ficava uma lavanderia, aquelas de colocar moedinha. O lugar era bem perto e na manhã seguinte lá fui eu com minha sacolinha de roupas sujas. A porta era automática e se abriu logo que eu parei na frente. O lugar era super limpo e organizado, mas não tinha ninguém lá. Pude ver máquinas de café, de salgadinhos e de outras coisas que não entendi o que eram (também aquelas de por moeda), cadeiras e cestos que pareciam estar lá para livre uso, uma mesa com o controle da TV e do ar condicionado e uma placa na parede com um monte de coisa escrita e a única coisa que eu entendi foi a parte que dizia “wi-fi: xxxxxxxx” (entenda essa sequência de X como a senha de números e letras romanas), além das máquinas de lavar, das secadoras, de ferro e tábua de passar, é claro.

No fundo da loja tinha uma pequena sala com uma mesa e uma cadeira. Achei que a pessoa que trabalhava no local devia estar no banheiro ou saído e voltaria em breve, mas logo percebi que não. Era um lugar em que você precisava fazer tudo sozinho mesmo. Fiquei imaginando o que seria de um local desses no Brasil e por quanto tempo os equipamentos sem nenhuma supervisão iriam permanecer. Se até as bicicletas comunitárias de São Paulo com sistema de travas e de pagamento são roubadas, o que dizer de uma TV que tem fácil acesso para qualquer um? Enfim, eram apenas eu e eu. O desafio de lavar roupa estava lançado. O que fazer quando você olha para uma máquina assim?

korea_maquina de lavar roupa
Máquina de lavar roupa na Coréia do Sul. O que fazer?

As instruções de uso estavam lá, mas a única coisa que entendi é que o limite era de 20kg e o valor por lavagem era de  4,500 (na verdade eu não entendi, apenas deduzi). O único botão da máquina parecia aqueles “em caso de emergência, aperte aqui”, então supus que eu tinha que por minhas roupas lá dentro, apertar esse botão e esperar. Na verdade eu agradeci por esse ser o único botão, porque se tivesse um monte deles eu ia pegar a primeira pessoa que passasse na rua para me ajudar.

Sem saber se o que eu estava fazendo estava realmente certo, joguei todas as minhas roupas lá dentro, fechei a porta e apertei o suspeito botão vermelho. A máquina começou a fazer barulho, a encher de água e a girar. Ufa! Acho que estava certo. Mas… espera, minhas roupas vão ser lavadas só com água? Na preocupação de saber se aquele era o botão certo mesmo, esqueci completamente que tinha que colocar sabão também. =P

E onde raios naquele lugar tinha sabão? Foi então que entendi aquela maquininha que ficava ao lado da de café e eu não sabia o que era. Vários pacotinhos de plástico zip e dentro fotos de mulheres coreanas bonitas e bem vestidas, mas não dava para ver o sabão em pó por trás da foto. Deduzindo que aquilo era o sabão em pó, coloquei as moedas na máquina e escolhi qualquer uma das 10 opções que tinham lá, afinal eu não fazia ideia da diferença entre uma e outra. Ainda tive que esperar os 30 minutos de lavagem terminar para começar de novo, dessa vez com sabão.

Mais de 1 hora depois de ter entrado nesse lugar minhas roupas estavam lavadas! E molhadas. Chegava a hora de enfrentar a secadora. Depois da experiência adquirida nos últimos 60 minutos, só coloquei tudo dentro da máquina, inseri as moedas e apertei o botão. Dessa vez não precisava de sabão ou qualquer outra coisa. A máquina rodou por uns 5 ou 10 minutos e quando a abri minhas roupas continuavam bem molhadas. Tentei mais uma vez e nada mudou, então decidi parar de gastar dinheiro naquela máquina e secar do jeito tradicional.

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Foi a lavagem de roupa mais cara de toda a minha viagem! Somando as 2 lavagens, as 2 secagens e o sabão, e convertendo para uma moeda mais amigável, foram mais de 10 dólares (nos dias de hoje isso seriam uns R$ 40). E pensar que o hostel que eu fiquei em Busan, minha primeira parada na Coréia do Sul, me deu uma lavagem grátis porque eu fiquei mais de 3 dias hospedada.

Voltei pra casa com as roupas limpas e molhadas. O desafio agora era achar um lugar para pendurá-las. O dono da casa não estava e até vi um daqueles varais dobráveis, mas estava cheio com as roupas dele e preferi não mexer. Consegui encontrar 2 cabides de roupa que me ajudaram muitíssimo e assim meu quarto ficou com camisetas penduradas na estante de livros, shorts na maçaneta da porta, meias espalhadas em cima da mesa e por aí vai.

Eu tinha uma roupa limpa para vestir no dia seguinte! 🙂

 

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* Imagem destacada: morguefile.com by Clarita

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

22 Comments

  1. 06/01/2017 at 10:54 — Responder

    Gente, e essas instruções? É de sentar e chorar D: hahaha

    • 09/01/2017 at 13:40 — Responder

      hahahahahah… né??
      Se chorar resolvesse as coisas, tudo ia ser tão mais fácil!

  2. 06/01/2017 at 11:55 — Responder

    Nossa! Eu olharia para a máquina e começaria a rir certo! Pegaria minha sacolinha de roupas e lavaria na mão mesmo, kkk… é cada história que temos pra contar, né?! Bom que deu tudo certo nessa empreitada! 😉

    • 09/01/2017 at 13:41 — Responder

      Eu ri de mim mesma! E o wi-fi ainda me ajudou a compartilhar a história em tempo real no facebook, assim mais gente riu comigo. hahahah

  3. 06/01/2017 at 13:09 — Responder

    A cada viagem uma surpresa diferente, até lavar roupa pode se tornar complicado e caro. kkk Abraço!

    • 09/01/2017 at 13:42 — Responder

      Bota caro nisso!!!
      No fim, a gente aprende que não sabe é nada. Nem lavar roupa.

  4. 06/01/2017 at 14:26 — Responder

    Meu Deuuuuss! Que complicadooo!! Fiquei com medo! Estamos indo pra Tailândia e espero que não seja assim rsrsrs! ;-*

    • 09/01/2017 at 13:43 — Responder

      hahahahaha…. As letrinhas da Tailândia tbm não ajudam muito, hein!
      Por incrível que pareça, é mais fácil achar quem fale inglês na Tailândia que na Coréia do Sul (pelo menos pra mim foi).

  5. 06/01/2017 at 16:14 — Responder

    hahahahahahaha bizarro ne hahaha

  6. 06/01/2017 at 17:16 — Responder

    Cada coisa que a gente passa em viagem. Mas o melhor de tudo é que a gente sempre tem histórias pra contar. No seu caso rendeu um post legal!

    • 09/01/2017 at 13:44 — Responder

      hahahaha… eu adoro essas histórias! Sejam minhas ou de outra pessoa, é sempre diversão garantida.

  7. 06/01/2017 at 21:35 — Responder

    Patrícia, teus perrengues são muito engraçados!!! Claro, pra quem está lá, passando por aquilo, dá um stress, mas ler sobre eles é bem legal! Bjs

    • 09/01/2017 at 13:46 — Responder

      hahahahha…. Na hora bate um desespero, mas depois sempre vira história pra contar.
      Na verdade, nessa história de lavar roupa eu me diverti muito rindo de mim mesma e da própria burrice de esquecer o sabão. Não teve stress. =]

  8. 07/01/2017 at 17:16 — Responder

    Eu me divirto muitíssimo com essas histórias loucas de viagem! Hahaha mas de fato eu também imaginava que Coreia do Sul fosse mais fácil de achar algum arriscando um inglês!

    • 09/01/2017 at 13:47 — Responder

      Pois é… e quando vc não acha dá nisso aí! hahaaha

  9. 07/01/2017 at 17:29 — Responder

    Caramba! Que tenso… acho que eu teria entrado em desespero tambem kkkkk Adoro seus posts e a forma como descreve suas aventuras <3

    • 09/01/2017 at 13:48 — Responder

      hahahahha…. No fim foi mais divertido que tenso. Eu ria de mim mesma. Como alguém quer lavar roupa só com água???

      Obrigada!!

  10. 08/01/2017 at 02:25 — Responder

    Patricia, eu adoro as suas histórias e perrengues da viagem.
    E são essas histórias que fazer a viajar vale mais a pena.

    • 09/01/2017 at 13:52 — Responder

      Uma viagem que não tem histórias pra contar não é uma viagem completa! =]

  11. Mimiquês é muito bom 🙂 Realmente esse não falha!! Quando estive na Índia pensava mesmo que também pensei que fosse fácil falar inglês. Mas não foi!

    • 09/01/2017 at 13:53 — Responder

      Na Índia?? Eu tbm jurava que o inglês fosse fácil por lá, apesar da pronúncia difícil. Muito bom saber disso!

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