Reflexão

Livre, o que Cheryl Strayed nos ensina

Livre: A jornada de uma mulher em busca do recomeço. O livro da autobiografia de Cheryl Strayed nos ensina muito sobre coragem, superação, renovação, autoconhecimento e perdão, além de nos mostrar como uma viagem pode nos fazer criar conexão com o nosso interior, mudar a forma de enxergar as coisas e transformar uma vida.

Atenção: esse post contém spoilers do livro e do filme.

Quando eu era criança passava horas entretida com a leitura, colecionava gibis e esperava ansiosamente pela feira do livro que tinha na escola. Confesso que muita coisa mudou quando tive que ler de forma forçada a lista de literatura na época do vestibular. Desde então, foram poucos os livros que prenderam minha atenção e Livre (Wild, em inglês) foi um deles.

 

O livro

Cheryl nos conta um pouco sobre sua história. A violência doméstica fez parte de sua infância e ela viu os pais se divorciarem quando tinha 6 anos. Aos seus 22, sua mãe descobre estar com câncer e falece em poucas semanas de tratamento. Ela não consegue aceitar esse fato e sua vida vira de cabeça para baixo. Seus irmãos e seu padastro se tornam cada vez mais distantes, seu casamento desmorona em uma série de mentiras e traições, ela se envolve com bebidas, drogas pesadas e interrompe uma gravidez indesejada. Em uma passagem pelo mercado, vê um livro sobre a tal Pacific Crest Trail (PCT) que chama sua atenção e decide fazê-la, aos seus 26 anos, com a expectativa que isso seja um recomeço para a sua vida.

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A PCT é uma trilha de  4260km, que inicia na fronteira dos EUA com o México, passa pelo Deserto de Mojave, pelos picos de Sierra Nevada, pelas florestas do Oregon e termina no estado de Washington, na fronteira com o Canadá. Ela opta por fazer um trecho de 1770km, entre Mojave, na Califórnia, e a Ponte dos Deuses, no Oregon. Sem experiência em percursos desse tipo, preparo físico ou conhecimento dos equipamentos, Cheryl parte para uma jornada de 3 meses.

A Monstra, apelido que deu a sua mochila, foi seu primeiro desafio. Excessivamente pesada e cheia de coisas desnecessárias, foi o fardo que ela carregou por todo o percurso. Ela mal consegue levantá-la do chão no começo e caminhar por dias com esse peso nas costas foi uma vitória. Durante o percurso ela abandona alguns itens, aprende a carregar apenas o necessário e a Monstra se torna sua companheira inseparável.

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Cena do filme Wild mostra Cheryl na PCT

Cheryl convive o trajeto todo com seus erros e aprendizados. Entre não saber usar o fogareiro para preparar sua comida ou depender de um reservatório seco e ficar sem água, uma das cenas mais marcantes é o seu problema com a bota. Por ser de um número menor do que deveria, uma de suas principais companheiras se torna uma tortura a cada passo e ela segue com bolhas, dores e machucados. Em uma parada no meio da trilha, Cheryl tira as botas para descansar os pés e, acidentalmente, uma delas rola montanha abaixo, sendo impossível recuperá-la. Ao perceber que apenas uma das botas seria inútil, somado ao momento de raiva, ela arremessa o outro par para longe e precisa improvisar um calçado para continuar.

Boa parte do tempo ela anda e acampa sozinha na trilha, mas conhece muitas pessoas durante sua jornada e cada uma delas a ajuda de alguma forma. A maior parte desses encontros são com pessoas gentis, que possuem o espírito da PCT – diferenças de classe, de religião ou escolhas políticas não importam, todos estão lá para carregar suas mochilas e seguir o seu caminho. Mesmo assim, a surpresa é grande por ser uma mulher sozinha e um grupo de trilheiros a apelidam de Rainha da PCT. Há um único momento em que ela se sente em perigo pelo fato de ser mulher, mas consegue escapar sem que nada aconteça.

Enquanto descreve o seu caminho, ela fala sobre sua história de vida, seus sentimentos mais profundos, suas descobertas, sobre como lidou com seus problemas, superou traumas e reflete sobre os erros que cometeu. E durante essa jornada ela cura a si mesma, se perdoa, deixa as pessoas partirem (em especial, sua mãe), se liberta e se encontra. Depois de 3 meses, ela se vê fora daquela vida destruída e capaz de decidir o seu destino. O livro está longe de ser um conto de fadas ou uma história de super-heróis e talvez seja esse o motivo, por ser uma história de gente como a gente, de tantas pessoas admirarem sua perseverança e até se identificarem com sua trajetória.

Veja o book trailer do livro:

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O livro virou best-seller e Hollywood o projetou para as telas do cinema. Eu, particularmente, não gostei do filme, mas é aquela coisa de sempre… depois de ler o livro, nenhum filme consegue retratar de forma fiel e em detalhes a mesma história.

 

O que o livro nos ensina

1. Preste atenção às oportunidades que aparecem

Mesmo sem experiência em trilhas, Cheryl partiu para a aventura que mudou sua vida e a fez recomeçar. Ela podia ter visto o livro da PCT e ter ignorado, mas não o fez. Partiu mesmo sabendo que as condições não eram ideais, mas no fundo, tinha a certeza de que aquele era o momento de ir.

Quantas vezes uma oportunidade bate a nossa porta e a perdemos por achar que não estamos preparados? O quanto deixamos de ganhar, de aprender ou de ensinar por deixar passar essa chance? O fato é que nós nunca estaremos 100% preparados para os desafios da vida e esperar para quando tiver maturidade, tempo, dinheiro, a pessoa certa, o emprego dos sonhos, quando… quando… quando? Esse momento perfeito com as condições ideais e todos os astros alinhados dificilmente vai chegar e as vezes o que precisamos é apenas partir, tentar, dar a cara para bater mesmo. Obstáculos vão surgir e o importante é seguir em frente. E se a oportunidade não bater à sua porta, vá você bater na porta dela.

 

 

2. Saiba lidar com suas dores

A história que Cheryl nos conta está cheia de metáforas. Sua bota apertada torna cada passo uma tortura e faz o trajeto muito mais difícil. Ela precisa lidar com seus machucados e dores nos pés, assim como precisa lidar com suas feridas e dores emocionais. A cena em que ela intencionalmente arremessa a sua bota mostra sua libertação. Ela conviveu com as dores até então por achar que a bota era um item essencial, mesmo depois de descobrir que era ela que lhe causava tanto sofrimento. Nesse momento ela joga fora o que lhe machuca e entende que existe solução para o que parecia ser essencial.

A gente também faz muito isso. O mundo não para para a gente arrumar a casa e é preciso seguir em frente mesmo quando dói. O quanto suportamos algo que nos machuca por achar que não podemos viver sem? Conviver com a dor por um tempo é importante para entender de onde ela vem, o que ela nos causa e nos dar motivos para virar o jogo, mas essa convivência é temporária, não pode ser para sempre. E ao mudar, percebemos que podemos sim viver de outra forma, que existem outros caminhos, outras formas de encarar a vida. Entenda o que está te machucando e jogue fora.

 

 

3. Carregue apenas o necessário

A mochila super pesada é mais uma metáfora e a principal delas, representando todos os sentimentos desnecessários que ela carrega – mágoas, culpa, raiva, angústias etc. Durante sua caminhada ela abandona alguns itens, carrega menos peso e a Monstra passa a ser sua companheira inseparável. Ela também deixa para trás a culpa e a raiva pela morte de sua mãe, compreende suas atitudes e a deixa partir dentro de si mesma. O mesmo acontece com os sentimentos em relação ao seu ex-marido.

E a gente também faz isso. Nossa vida não é um mar de rosas e todos temos dificuldades nos relacionamentos, sejam eles amorosos, familiares, com amigos ou no trabalho. Compreender o outro lado e conseguir perdoá-los é libertador. Isso não significa esquecer ou concordar. O passado não vai mudar, mas a forma como você se relaciona com ele pode ser diferente. Faça como a Cheryl e deixe para trás a bagagem pesada e dolorosa, encare os fatos com maturidade e sabedoria e saiba enxergar o lado positivo, por mais difícil que seja. Sempre há uma lição a ser aprendida. Compreender e perdoar é libertador e abre portas para seguirmos para um novo ciclo, com o coração mais leve. Ninguém disse que isso é fácil, a evolução vem com cada pequeno passo.

 

 

4. Persistência e foco são a chave para o sucesso

A Cheryl errou muito em sua jornada – não sabia usar seu fogareiro, comprou uma bota muito pequena, partiu com uma mochila excessivamente pesada, ficou sem água… Ela teve motivos para desistir, mas nunca o fez. Persistiu, entendeu onde podia mudar, buscou a solução para os problemas, tinha seu objetivo final claro em sua mente e foi até o fim.

Quantas vezes você quis fazer alguma coisa, mas desistiu no primeiro obstáculo que apareceu? Arranjou desculpas para não seguir em frente? Se auto sabotou? Procrastinou? O caminho até a conquista é árduo e não existem atalhos. Errar faz parte do processo. Saber levantar e continuar caminhando também. Quando você tem um foco bem definido e quer algo de verdade, parece que o mundo começa a conspirar a favor. Mas também é preciso fazer sua parte.

 

 

5. Há mais gente boa no mundo do que você imagina

Cheryl conheceu muita gente durante o percurso. A grande maioria a ajudou de alguma forma sem que ela oferecesse nada em troca, seja com conselhos, com comida, com caronas, com companhia ou com uma simples conversa. Poucas mulheres fazem essa trilha, ainda mais sozinhas. Isso não a impediu de seguir e foram raras as vezes que ela se viu em situação de risco.

Nós vivemos em um mundo de desconfiança, onde tudo é suspeito, acompanhado de segundas intenções ou interesses. Será que precisa ser sempre assim? Tem situações em que é preciso tomar um certo cuidado sim, mas de vez em quando baixe um pouco a guarda e descubra quantas coisas incríveis podem acontecer. Acredite no seu feeling. E se você é mulher, quebre preconceitos e paradigmas, permita-se, aventure-se.

 

 

6. Deixe uma viagem te transformar

Após os 3 meses na PCT, Cheryl é uma nova pessoa.  O fato de enfrentar situações totalmente fora da sua zona de conforto a fez entender quem ela realmente é. Estar esse longo período sozinha e dependente apenas dela mesma possibilitou um profundo auto-conhecimento. Ela se encontrou, superou traumas, compreendeu, se aceitou, passou por um processo de transformação e amadurecimento.

E é isso que uma viagem faz com a gente, se nós permitirmos. Aproveite suas viagens para se conhecer melhor, entender seus limites, destruir crenças limitantes, desconstruir verdades e expandir horizontes. Saia da sua zona de conforto, dê chance ao acaso, conheça histórias interessantes, permita-se transformar. Mais importante que o seu destino, é a jornada que te leva até lá.

 

* Todas as fotos: divulgação imdb.com

 

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The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Nascida em São Paulo, já chamou de casa o Japão, a Austrália, o Chile e tem o passaporte carimbado por uma volta ao mundo. Descendente de japoneses com orgulho e ativa na comunidade nikkei, participa de projetos para divulgação do Japão e para o fortalecimento da cultura japonesa no Brasil. Está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

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