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Killing Fields e o Museu S-21

Depois de algum tempo no Camboja você começa a reparar que é difícil encontrar idosos, porém é bastante comum ver pessoas que perderam braços ou pernas. Outro fato marcante é que os locais são sempre alegres e de sorriso fácil. O que uma coisa tem a ver com a outra? O país tem um passado recente trágico e realmente é impressionante como as pessoas são amigáveis, pacíficas e sorridentes.

Existem lugares que você vai durante uma viagem que são horríveis e realmente não te fazem sentir bem, mas ainda assim merecem a visita. Killing Fields e o Museu S-21 fazem parte dessa lista.

No Brasil, pouco se ouve falar em Pol Pot, um revolucionário comunista que liderou o Khmer Rouge (Khmer Vermelho no Brasil) e foi o responsável pelo maior genocídio da história do Camboja, que começou em 1975, quando Phnom Penh foi tomada pelos comunistas durante a guerra civil, e terminou em 1979, quando o Vietnã invadiu o Camboja e os campos de extermínio e prisões, até então secretos, foram descobertos. Em 4 anos estima-se que 2 milhões de pessoas morreram, o que representava 25% da população do país, na época.

Pol Pot defendia uma sociedade agrária e montou seu exército com meninos do interior com poucas oportunidades e praticamente nenhum conhecimento do mundo exterior. Mandou prender todos os intelectuais, professores, monges, pessoas com estudo ou com qualquer tipo de relação internacional ou mesmo quem tinha mãos macias. Os estrangeiros foram expulsos do país e os que ficaram foram presos também.

Os presos eram obrigados a trabalhar arduamente nos campos. Levados ao Security Office 21 (conhecido como S-21), originalmente uma escola, eles viveram em condições sub-humanas, higiene precária, quase nenhuma comida e eram interrogados sobre conexões com a CIA ou KGB e torturados até que confessassem seus “crimes” ou nomeassem espiões. A maioria dos presos era inocente e não fazia ideia do porque estavam ali. Eles foram obrigados a inventar histórias para que as torturas parassem. Cerca de 20 mil pessoas passaram por essa prisão e muitas morreram durante as torturas.

Hoje, esse lugar é o Toul Sleng Genocide Museum. Ainda é possível ver as marcas de sangue no chão e as ferramentas utilizadas para as torturas. Os arames farpados que cercavam as salas de aula ainda estão lá, assim como as minúsculas celas em que as pessoas foram confinadas. O museu está repleto de retratos, todos os presos foram fotografados, inclusive crianças, e seus depoimentos registrados. Há fotos das torturas e de pessoas mortas, além de depoimentos dos sobreviventes, que são apenas 12. Alguns dos sobreviventes trabalham hoje no museu, vendendo livros com seus relatos. Eles sobreviveram apenas por terem habilidades que interessavam Pol Pot, como saber desenhar ou entender sobre mecânica.

S-21
Celas construídas no S-21

 

Os mortos eram enterrados ao redor do S-21, mas em pouco tempo não havia mais espaço para outros corpos então os presos começaram a ser enviados para o Choeung Ek Genocidal Center, antes um cemitério chinês, com a promessa de mudar de trabalho. Do S-21 eles eram levados em caminhões e lá eram mortos de forma cruel. Os assassinatos ocorriam sempre a noite, quando os presos eram obrigados a cavar buracos no chão, que seriam suas próprias covas. Vendados, eles eram espancados na cabeça com qualquer objeto que estivesse disponível – bambus, ferramentas agrárias etc, pois o uso de munição era muito caro – e caiam nas valas. Em seguida eram enterrados e cobertos com ácido, que terminaria de matar os que ainda estivessem vivos.

Hoje, o lugar conhecido como Killing Fields é super bonito, verde, florido e com um grande lago, mas cheio dos rastros das atrocidades que aconteceram há poucos anos atrás.  Com o corpo enfraquecido pelas torturas e pela falta de comida, as valas cavadas pelos próprios presos não eram muito fundas e os corpos e roupas começaram a aparecer com a ação do vento e da chuva. As valas foram escavadas e os ossos retirados, mesmo assim o local pede que caso os visitantes encontrem qualquer vestígio de restos humanos, avisem os staffs.

Duas árvores se destacam. Uma delas é chamada de magic tree, onde eram penduradas as caixas de som que tocavam música a noite, durante os assassinatos. Isso era feito para que os que ainda estavam vivos não escutassem os barulhos e gritos. A outra árvore é a mais marcante, também por ser a mais triste, chamada de killing tree. Mulheres e crianças não escaparam dos assassinatos e geralmente toda a família do preso era morta para evitar ações de vingança. As crianças eram seguradas pelos pés e suas cabeças golpeadas na tal árvore. Tal ato era feito na frente das mães, que eram mortas na sequência. Ao lado da árvore uma vala foi encontrada com corpos das crianças e de mulheres nuas, provavelmente estupradas antes de serem assassinadas.

Killing tree
Killing tree, onde bebês foram mortos

 

No local foi erguido um monumento em homenagem às vítimas. Crânios e ossos foram separados e classificados e é possível ver a forma como eles foram mortos, de acordo com as fraturas. Espere ver crânios de crianças também.

Infelizmente, toda essa história não é enredo de um filme. Tudo aconteceu e foi liderado por um homem cujo lema era “To keep you is no gain, to lose you is no lost” (manter você não é ganho, perder você não é perda). A mensagem final que o lugar deixa é: conheça e aprenda com a história desse lugar para que isso não se repita no futuro.

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Apesar de pesado, esse passeio é super recomendado e um dos principais de Phnom Penh. A melhor forma é contratar um tuk tuk para fazer ambos, isso deve custar cerca de $15, que pode ser dividido em até 4 pessoas (capacidade do tuk tuk). O recomendado é fazer o museu primeiro, ordem como os fatos aconteceram, para que o entendimento fique mais fácil. A entrada do museu custa $3 e do killing field $6, o que já inclui o audio-guide (em inglês). Use-o, senão você não vai entender nada, além disso ele contém depoimentos dos sobreviventes que valem a pena escutar.

 

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

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