Reflexão

Japão e Brasil, 110 anos de história

Foi em 1908, com o Japão em crise econômica, o Brasil visto como promessa de vida e após o tratado de amizade entre os dois países, que o Kasato Maru, o primeiro navio a trazer imigrantes japoneses para terras tupiniquins, atracou no porto de Santos.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Este ano de 2018 fica marcado na história com as celebrações dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil e há muito para comemorar.

 

Uma história difícil de superação

Nem todos sabem que os primeiros imigrantes japoneses que chegaram ao Brasil vieram com uma promessa de vida próspera, cheio de expectativas e aqui esperavam encontrar uma situação melhor que a do Japão, na época. Isso não aconteceu, não foram recebidos dessa forma. Eles se depararam com um trabalho bastante duro nas lavouras, uma grande dificuldade de se adaptar a um lugar e cultura tão diferentes e viram o sonho de retornar à sua terra natal ruir.

Entre obstáculos vencidos e muitas dificuldades superadas, encontraram no Brasil um novo lar para construir novos sonhos. E assim, pouco a pouco foram ganhando espaço e reconhecimento na agricultura, na educação, nas áreas da saúde, no comércio, na política etc. Tudo isso sem perder características que fazem parte da essência de sua cultura e que ainda são reconhecidas nas gerações que vieram depois – respeito, dedicação, disciplina, humildade etc.

110 anos depois, temos uma cultura japonesa que se misturou à brasileira. Temos gerações que carregam toda essa história consigo. Temos diversos movimentos que lutam para manter tudo isso vivo. E só temos a agradecer ao país que recebeu os imigrantes para construir isso tudo.

O clipe gravado por Joe Hirata, em comemoração aos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, passa exatamente essa mensagem.

 

Comemorações dos 110 anos de imigração

110 anos não podiam passar em branco e diversas comemorações estão acontecendo durante este ano de 2018. Dentre elas, um grande evento foi realizado no dia 21 de julho, durante o Festival do Japão, para receber um representante da família imperial japonesa no Brasil e foi uma honra estar presente nesta cerimônia para um público tão restrito e ver de perto a Princesa Mako.

Em um breve discurso, em japonês, ela agradeceu a calorosa receptividade que teve no Brasil e disse estar feliz por visitar um país que tem grande afinidade desde pequena e por ver a cultura japonesa tão presente. Vale lembrar que o Brasil tem a maior comunidade japonesa do mundo, fora do Japão, com cerca de 2 milhões de pessoas.

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Princesa Mako, da família imperial japonesa, em discurso durante evento comemorativo aos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, realizado no Festival do Japão.

Além dela, autoridades brasileiras discursaram e entre as falas foi unanimidade a admiração pela cultura e o legado que a presença dos japoneses deixa para o Brasil.

O evento contou ainda com lindas apresentações culturais de música e dança. Há quem diga que o som do taiko remete às batidas do coração e é capaz de expressar sentimentos que se propagam junto com as vibrações. Parece uma visão romântica, mas que nunca fez mais sentido pra mim. Foi emocionante ver a mistura de gerações se apresentando, da senhorinhas às crianças, todos com um sorriso no rosto, e ver não-descendentes no meio que carregam a cultura com tanto orgulho quanto nós.

110anos_taiko

 

Gratidão e orgulho de fazer parte

Todas essas ações que estão sendo realizadas em comemoração dos 110 anos da imigração japonesa do Brasil são excelentes para divulgar os movimentos culturais que existem no país e alcançar aqueles que nada ou pouco conhecem desse lado nipobrasileiro. Mas e para quem já está inserido nesse meio, o que muda?

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Muitas pessoas já me perguntaram se eu me considero mais brasileira ou mais japonesa e essa resposta é muito fácil. Nascida, crescida e criada no Brasil. 100% brasileira e com uma enorme e profunda admiração pelo pedaço de mim que tem raízes lá no outro lado do mundo.

Não é muito difícil concluir que 100% + um pedaço é maior que o todo. E fica ainda mais confuso quando esse pedaço não é nada pequeno. E é isso mesmo. Ouvi um depoimento sobre esse assunto faz pouco tempo e que muito me representa. Tem quem diga que é metade de um e metade do outro, mas ser apenas metade é renegar uma parte importante que compõe quem eu sou. Sou uma pessoa completa, 100% brasileira e 100% nikkei (nikkei = pessoas de descendência japonesa nascidas fora do Japão ou japoneses que vivem no exterior. Ou em uma visão mais atual, são pessoas que admiram e se conectam de alguma forma à cultura japonesa, independente de sua origem).

Isso só é possível devido a dois fatores que já mencionei ai em cima e que ganharam mais importância depois de ouvir os discursos e ver o espetáculo que foram as apresentações. Gratidão a esse país que acolheu os imigrantes (entre eles, meus avós) e que recebeu e tornou possível seus sonhos. Orgulho daqueles que deixaram o Japão e chegaram em terras desconhecidas, batalharam muito para repassar a cultura e conhecimento para as outras gerações e para construir o que temos hoje. Sem vocês, nada disso existiria agora.

Obrigada Brasil! Obrigada Japão!

110anos_entrada arena
Na entrada da Arena 110 para participar do evento em comemoração aos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, com a presença da Princesa Mako, da família imperial do Japão.

 

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

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