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Caminho de santiago – A partida

O Caminho de Santiago de Compostela. Desafiador? Místico? Mágico? É difícil encontrar alguém que fez o caminho e não fale bem. Dizem que há uma energia diferente, que as pessoas se descobrem, encontram respostas. Cada um tem a sua versão e entre tantos comentários positivos e curiosos, resolvi ir para lá, conferir com meus próprios pés. Esse é um post bem pessoal. Menos roteiro e mais expectativas. Menos dicas práticas e mais motivos que me levam até lá. Escrevo alguns dias antes de partir.

O destino final é sempre o mesmo: a cidade de Santiago de Compostela, mais especificamente a sua catedral. O trajeto varia muito. Existem percursos diferentes, pontos de partidas distintos, alguns mais longos, outros mais árduos. Dá para fazer andando, à cavalo ou pedalando. Já a jornada interior, essa cada um faz a sua.

Eu optei pelo mais tradicional dos caminhos, o francês, o que foi percorrido pelos discípulos que buscavam a sepultura do apóstolo Tiago, um dos mais próximos de Jesus Cristo. Ele começa na cidade de Saint Jean Pied Port, quase na fronteira da França com a Espanha, e termina em Santiago de Compostela, onde estaria a tal sepultura, e onde hoje se encontra a catedral. São 800 km percorridos a pé em pouco mais de 30 dias. Pelo menos esse é o plano.

Compostela_caminho frances
O caminho francês

 

A decisão de fazer o Caminho de Compostela

Não existe uma resposta certa. Cada um tem seu motivo pessoal, suas motivações internas. Tem os que vão para fugir dos problemas, outros que buscam a solução dos mesmos. Há quem quem procura respostas, há quem faça perguntas. Tem até os que não tem motivo, mas vão porque todo mundo vai ou porque leram em uma revista de turismo que é um passeio que deve ser feito pelo menos uma vez na vida. Tem um pouco de tudo.

Percorrer esse caminho é uma das minhas metas de vida, tanto que é um dos itens que está na minha bucket list de viagens. Apesar de querer, eu não tinha um prazo definido para ir, talvez por nunca ter encontrado um real motivo que me levasse até lá. Não sei se você acredita em sinais, mas eu sim e comecei a receber alguns.

Tenho amigos de estrada, que conheci durante durante viagens e agora estão em algum lugar por ai no mundo, e fizeram o caminho. Acompanhei a jornada deles pelas fotos do facebook sempre com aquela voz interior me dizendo: um dia a minha vez vai chegar.

Um belo dia uma amiga disse que tinha terminado de ler um livro e me emprestou, afirmando que era a minha cara e que eu deveria ler. Era o Livre: a jornada de uma mulher em busca do recomeço, a autobiografia de Cheryl Strayed que conta como foi sua jornada de 3 meses na PCT em um percurso de 1770 km, suas reflexões e aprendizados e como isso mudou sua vida. Foi uma leitura intensa e curiosa, feita durante uma viagem para Europa e que despertou ainda mais a minha vontade de fazer algo do tipo. Terminei de ler o livro dentro do avião de volta ao Brasil e o primeiro pensamento que veio à minha cabeça foi o Caminho de Santiago de Compostela. Coincidência ou não, um dos filmes disponíveis neste vôo era o que foi inspirado nesse mesmo livro. E foi o primeiro que eu assisti dentro daquele avião.

Pouco tempo depois, mais um conhecido partiu para o Caminho e mais uma vez acompanhei de longe e online. Ao ver a foto em que ele chegou à Catedral de Santiago de Compostela, comentei dizendo que um dia também iria fazer isso. Algum tempo depois, chega em casa uma caixa dos correios e ao abrir vi uma vieira, a concha que é o símbolo dos peregrinos, e uma carta que contava um pouco da história e da experiência que ele passou. Abaixo um trecho da carta.

 

“Cada um faz o seu Caminho. Apesar de seguirmos a mesma estrada, a viagem é diferente para cada um. Não importa de onde você partiu e nem o quanto você andou, desde que o faça de coração aberto. No momento certo o Caminho vai te chamar e sua busca será inevitável. Afinal, somos daquela estirpe que sempre precisa estar partindo.”

 

“No momento certo o Caminho vai te chamar e sua busca será inevitável” foi uma frase que me marcou. Talvez por tirar de mim a pressão de ter que definir algo que eu não tinha definido, talvez por enfatizar o lado místico que dizem que o Caminho tem.

Menos de uma semana de ter recebido essa carta, um amigo disse que estava pensando em fazer o Caminho e precisava de ajuda no planejamento de vôos, trens etc. E logo veio o convite: você não quer ir comigo? Muitos sinais em um curto espaço de tempo, foram menos de 2 meses entre o empréstimo do livro e o convite. Entendi que o Caminho estava me chamando.

 

Por que fazer o Caminho?

Diferente de muita gente, não vejo essa caminhada como uma fuga ou uma forma de superar traumas, mas como mais uma etapa de uma busca. Há alguns anos iniciei uma jornada de autoconhecimento, uma busca pela minha missão, pelo meu propósito de vida, do motivo pelo qual eu vim parar nesse mundo. Adicionei ao meu currículo de vida alguns cursos, palestras, livros e muitas conversas e reflexões. Acho que nossas vidas têm um sentido muito maior do que apenas nascer, crescer, trabalhar, ter filhos e morrer (não necessariamente nessa ordem, não necessariamente todas as etapas). É preciso construir (e não necessariamente estou falando de coisas materiais), é preciso saber qual o legado que vamos deixar. E o Caminho vai proporcionar momentos de reflexão, de contato comigo mesma, de contato com outras pessoas que também estão nessa mesma busca e estão cercadas pela aura mística que dizem que o trajeto tem.

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Além disso, o Caminho é uma lição de desapego e desapegar é sempre bom. Já falei sobre isso quando expliquei o que eu perdi viajando e a ideia é a mesma. Começa pela mala, afinal a proposta é ter apenas 5 ou 6 kg nas costas, ir apenas com o essencial para os 30 e poucos dias. Se durante o percurso perceber que algo que eu estou carregando está apenas fazendo peso, será abandonado no meio do caminho. Tirando isso do material, o mesmo acontece. Nós sempre carregamos sentimentos que apenas deixam nossa vida mais pesada. Na correria do dia a dia, as vezes nem percebemos o que nos incomoda ou quais as consequências disso, e a proposta é que esses dias, em que o único objetivo é chegar ao destino final, sem outras preocupações ou interferências, sejam o tempo para entender tudo isso e deixar para trás o desnecessário, para que fique apenas o essencial para uma vida mais leve.

 

Por que fazer o Caminho andando?

Mas… 800 km andando? Por que não vai de ônibus? Ou de bicicleta? Ou aluga um carro? Esses foram alguns dos comentários que ouvi quando conversei com as pessoas dizendo qual seria minha próxima aventura.

Mais importante que chegar ao seu destino, é a jornada que te leva até lá. Isso vale para o Caminho de Compostela e vale para a vida. É exatamente a proposta de passar horas andando e fazendo isso por muitos dias que vai proporcionar a reflexão e o autoconhecimento que falei ai em cima. Ir de carro ou de ônibus não traria a mesma experiência (de bicicleta ainda é válido, mas não para mim neste momento).

E essa é mais uma daqueles caminhos sem volta. Como na história da Mili, a pessoa que vai não retorna, não com a mesma cabeça, mas com outra visão de mundo e outras perspectivas, mais confiante de si, com mais certeza do que quer e pronto para novos desafios.

Um Buen Camino para mim. E para você que pretende fazer o mesmo e está lendo esse post.

 

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The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

10 Comments

  1. 15/05/2017 at 10:48 — Responder

    Deve ser incrível essa experiência. Diferente, cansativa, com certeza, mas deve valer a pena. Adorei o post!

    • 15/05/2017 at 18:07 — Responder

      Valeu cada passo e cada segundo. É tanta coisa acontecendo que a gente até esquece do cansaço.

  2. 15/05/2017 at 11:14 — Responder

    Esse é um dos itens que está na minha lista, principalmente pela viagem interior de autoconhecimento. Quero muito fazer e ler seu relato e conhecer sua experiência me inspirou ainda mais. Parabéns!!!

    • 15/05/2017 at 18:06 — Responder

      A viagem interior é inexplicável. Só vivendo para entender.
      Foi uma experiência que não dá pra esquecer.

  3. 15/05/2017 at 16:50 — Responder

    Demais! Assim como você tenho como meta este caminho, mas ainda não tenho nem ideia de quando, como e porque! Só sei que quero! Em algum momento de minha vida estarei realizando este desejo!

    • 15/05/2017 at 18:04 — Responder

      O que eu posso te dizer é: não esqueça que vc tem essa meta.
      Vc vai saber quando é o momento certo, porque o caminho chama aqueles que devem percorrê-lo. Saiba escutar.

  4. 15/05/2017 at 20:05 — Responder

    Que post maravilhoso Patricia! Eu já tive muita vontade de percorrer o Caminho de Santiago. No entanto, a viagem foi meio que se perdendo na loucura da vida. Semana passada fui ao Jalapão e conheci uma menina que embarcaria hoje para fazer o caminho partindo da mesma cidade que você citou aqui. Quem sabe é uma mensagem para repensar essa vontade de criança…
    Um bom caminho para você!
    Um super beijo
    Carolina

    • 20/05/2017 at 17:24 — Responder

      Com certeza são mensagens. É o caminho te dizendo para não se esquecer dele. Se vc já teve a ideia de percorrê-lo um dia, não esqueça disso. Na hora certa vc saberá que deve partir. =]

  5. 16/05/2017 at 22:29 — Responder

    meu irmão fez o caminho de compostela e achou demais! ele disse que repensou varias coisas da vida durante a caminhada….

    • 20/05/2017 at 17:25 — Responder

      É um caminho para pensar na vida mesmo. Inconscientemente a gente começa a refletir e a dar uma nova visão para as coisas. É mágico!

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