Reflexão

Aquela viagem da qual eu nunca voltei

Vamos falar da história da Mili. Um dia ela decidiu que queria viajar, conhecer o mundo, novas pessoas, novos lugares. Colocou as roupas na mala, juntou um dinheirinho, uma boa dose de coragem, se despediu dos familiares, dos amigos e partiu para uma jornada de 6 meses. Mas ela nunca voltou.

Ela amou muitos lugares por onde passou, se apaixonou por muitas pessoas que conheceu e imaginou uma nova vida lá do outro lado do mundo. Mas não, ela não ficou por lá. Na verdade, a Mili que partiu não está mais aqui.

Ela embarcou em uma viagem sem volta, ela sabia disso quando foi e tinha medo. Ela sabia que qualquer coisa poderia acontecer, que ela poderia se perder em algum lugar de onde não saberia voltar. Mas ela também sabia que aquela era a viagem de sua vida e estava disposta a correr esse risco. E, de fato, foi isso que aconteceu.

Mili passou por mais de 50 cidades, viu lugares lindos e conheceu muitas pessoas. Durante suas andanças ela percebeu que estava perdida. Ela se perdeu dentro dela mesma. Dentre tantas experiências, culturas diferentes e histórias de vida ela viu a Mili que conhecia se desconstruir, sua percepção do mundo foi se transformando e ela passou a dar valor a muitas coisas que passavam despercebidas em sua vida, assim como passou a se importar menos com coisas que lhe incomodavam tanto e na verdade não mereciam todo esse gasto de energia.

Em uma coisa ela se enganou. Na verdade, ela sabia o caminho de volta, mas não queria mais voltar a ser a mesma pessoa de antes. Ela percebeu que agora via o mundo de forma muito mais ampla, aprendeu a se conhecer e a se reconhecer nos outros e nas suas histórias. Ela começou a enxergar as coisas por outro ângulo e a olhar para si mesma de outra forma. Ela percebeu o quanto mudou e não queria dar passos para trás em todo esse aprendizado.

E então, chega o fim da sua viagem. Chega o momento de Mili voltar para casa, reencontrar a família e os amigos, contar como foi sua jornada e retornar para a vida que tinha antes. Mas ela não voltou, lembra? Aquela Mili que partiu cheia de medos e inseguranças nunca voltou, ela se perdeu em algum lugar. Ou se encontrou. A Mili que voltou não é a mesma que partiu, mas uma nova Mili cheia de certezas, de novos sonhos e de histórias para contar.

Essa é a história da Mili, mas na verdade a Mili não existe. Ela é só um personagem que eu inventei para te contar uma história. Uma história da minha vida, mas que também pode ser a sua história. Se você permitir, uma viagem pode te transformar.

Eu realmente comecei a desconstruir pensamentos que tinha como verdades quando vi a Ronda das Almas em Luang Prabang, no Laos. Ver os monges caminhando pelas ruas para receber doação de comida foi a maior lição de desapego e simplicidade que já tive. Eles são super respeitados no país, tanto que as únicas pessoas que não precisam retribuir uma reverência são os monges e o rei, e isso não significa que se sintam mais importante que os outros. Isso me fez pensar na real importância do diploma do MBA, do celular de última geração, da roupa de grife, da barriga sarada ou do almejado cargo de diretor que tanto queremos. O quanto esse “eu quero” materialista que tanto falamos é vazio? O que está por trás disso tudo? Realmente precisamos deles ou só buscamos a aceitação da sociedade?

Ronda das almas - Luang Prabang, Laos
Ronda das almas. Momento mágico

Exemplos como este, que me causaram uma reflexão, não faltam. Poderia citar mais 1, 2, 10, 20, 500, mil… e não conseguiria transmitir o mesmo ensinamento que tive no momento. Estar presente, vivenciar, ter a experiência são coisas muito diferentes de alguém te contar a história. Algumas coisas é preciso ver com os próprios olhos.

Assim como a Mili, eu não voltei. Não a mesma pessoa. E só no retorno eu tive noção da quantidade de coisas que vivenciei e da velocidade que tudo aconteceu. Foram 6 meses intensos e aprendizados constantes. Mas esse mesmo tempo no lugar onde eu morava foram apenas mais 6 meses que se passaram. As ruas tem as mesmas casas e lojas. As rotinas continuam as mesmas. As pessoas continuam na correria de casa, escritório, faculdade etc como sempre. E continuam esperando ansiosamente pela sexta-feira e pelas férias. E reclamando do chefe, do governo e da vida. E percebi o quanto aquela frase que tanto usamos “tem coisas que nunca mudam” pode ser uma armadilha. Percebi que uma viagem pode consolidar ensinamentos de uma vida em alguns meses. E mais, percebi que poucas pessoas me entendem quando eu falo sobre isso (geralmente só as que já tiveram a mesma experiência) e eu preciso compreendê-las porque o meu ponto de vista mudou, mas o delas não.

E aquela Mili cheia de certezas também sou eu. Não certezas no sentido de que eu sou a dona da verdade, mas certezas do que eu quero para mim a partir de agora. Eu quero liberdade, mas não pense apenas em liberdade financeira ou liberdade de expressão. Quero ser livre dessas amarras sociais a que as pessoas estão presas (e não entendem que elas mesmas se prenderam). Eu quero mudanças, e não falo de casa, de emprego ou de país. Quero mudar para ser uma pessoa cada vez melhor e para fazer dos outros pessoas melhores. E eu quero asas, mas não só as do avião na próxima viagem. Quero asas que me façam voar alto, mesmo com os pés no chão, para realizar os meus sonhos e, porque não te ajudar nos seus?

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The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

34 Comments

  1. Barbara Quadros
    20/03/2015 at 09:40 — Responder

    Excelente texto. Vocefaz com que viajemos com voce sem sair do lugar Pat. Parabéns!

    • 20/03/2015 at 10:13 — Responder

      Oi Barbara,
      Obrigada!! Muito bom te ver por aqui. =]

  2. Priscila
    25/03/2015 at 11:16 — Responder

    Sensacional Patte!!!
    Uma honra ter sua amizade!
    Que possamos voar cada vez mais longe rumo aos nossos sonhos!
    <3

    • 25/03/2015 at 12:13 — Responder

      Que bom ver seu comentário aqui Pri!
      Vamos voar alto sempre!

  3. 12/04/2015 at 12:11 — Responder

    Oi Patrícia! Estou numa viagem de volta ao mundo que durará um ano. Uma das conclusões que cheguei até o momento foi: não é fácil. Por mil motivos, alguns que acredito que sejam de todos que passam por isso, e outros bem particulares meus. Mas isso, é claro, não quer dizer que seja válido. E ler um texto como o seu ajuda bastante, principalmente quando estamos no meio da experiência.

    Um beijo!

    • 13/04/2015 at 16:39 — Responder

      Maria,

      Que bom ler seu comentário e saber que ajudei, de alguma forma 🙂
      Com certeza, apesar de para os outros parecer um mundo de mil maravilhas, não é fácil.
      Aproveite sua viagem! E, mesmo com todas as dificuldades que aparecem, no final você vai ver o quão recompensador foi e o quanto você cresceu e aprendeu.
      bjo,

  4. camila
    28/10/2015 at 06:14 — Responder

    Oi patricia! Incrível como voce se descreveu, e me descreveu!!
    somos privilegiadas em ter conseguido se desamarrar desse sistema e ser livres! Gratidão e que o universo nos de mais e mais!
    bjs

    • 29/10/2015 at 23:22 — Responder

      Camila,
      Liberdade sempre!
      E sempre jogando coisas boas para o universo tbm.
      Bjo

  5. Fernanda
    03/02/2016 at 23:29 — Responder

    Patrícia,
    Eu nunca li algo que descreva tão bem o que sinto sempre que volto de minhas viagens como esse texto.
    Eu não fiz uma viagem tão longa como a sua mas é incrível como nossa percepção de mundo muda quando conhecemos lugares novos e culturas diferentes. É incrível como passamos a entender que o que realmente importa na vida é aquilo que nossos olhos podem ver, que nossas mão podem tocar e que nosso coração pode sentir. Todo o resto é supérfluo.
    Eu amei muito seu texto, me identifiquei demais e entendo seu sentimento de que ninguém entende o que a gente sente, apenas quem já passou por essa experiência e isso é a mais pura verdade. Parecemos ET’s perto de pessoas que vivem nessa selva de pedra correndo atrás de coisas que nem sabem ao certo o que é.
    Obrigada por abrir seu coração e partilhar a história da Mila conosco.
    Abraços,

    • 05/02/2016 at 11:06 — Responder

      Fernanda,

      Amei seu comentário!
      Realmente, as vezes damos muita importância ao supérfluo e esquecemos que o que realmente importa são as coisas mais simples.
      Muito bom saber que existem pessoas que se identificam com esse mesmo sentimento.

      Muitas viagens para vc!

      bjo

  6. Thamy
    29/04/2016 at 13:35 — Responder

    ahhh que tópico inspirador. Eu tenho vontade de largar tudo e fazer como vc fez. Nada me prende (a não ser o trabalho) e me pergunto toda hora “porque não faço”. Falta a tal coragem que vc menciona? Um dia teria que voltar, e aí, como as coisas estariam, como as pessoas estariam? teria meu trabalho de volta? e se desse tudo errado? e “se”, e “se”, acho que essa é a minha maior corrente.

    • 25/05/2016 at 10:23 — Responder

      Thamy,
      O que posso te dizer é que vc nunca saberá essas respostas se não tentar.
      As pessoas importantes sempre estão com a gente, não importa a distância. Oportunidades de trabalho aparecem para quem busca e está aberto e preparado.
      Se tudo der errado, no mínimo vc aprendeu e cresceu com a experiência de ter tentado. 😉

  7. 20/09/2016 at 15:04 — Responder

    Amei o texto! Que a mili seja bem vinda a nova versao de si e nao volte mais mesmo 🙂

  8. 13/01/2017 at 14:39 — Responder

    Inspirador, eu diria sobre esse texto… Nunca passei tanto tempo na estrada, eu sempre volto para o ninho depois de poucas semanas, como para acomodar as experiencias vividas, o novo olhar, a nova eu…

    Minha jornada é essa também: a do desapego, da simplicidade e de pensar sobre o que é realmente importante. Aprender a ser generosa e olhar o outro com respeito. A não ligar para rugas, barriga tanquinho, celular, roupas e carros caros… Aprender, aprender, aprender, trabalhar da melhor forma possível.

    Por mais textos como esse, por mais mudanças nas pessoas… beijos Ana

  9. 17/01/2017 at 19:03 — Responder

    Que lindas palavras, Ana! =]
    É isso. A gente tem que aprender a dar valor ao que realmente tem valor. Não é nada fácil. A mídia, o marketing, a sociedade, tem tanta coisa que vai na direção oposta, né? De pouquinho em pouquinho a gente vai mudando.
    Viagens contribuem imensamente nesta jornada. Eu acredito!

  10. Martha Sousa
    01/03/2017 at 12:08 — Responder

    Parabéns, Patricia.

    Texto altamente inspirador. E olha, você não está sozinha neste tipo de pensamento. Muitos viajantes se lançam ao desconhecido, justamente para ser perder e se reencontrar, ou por que não, mudar totalmente conceitos, percepções e tudo mais.

    Obrigada por compartilhar este ponto de vista. Parabéns!!!

    Abraços.

    Martha.

    • 01/03/2017 at 16:16 — Responder

      Martha,

      Fico muito feliz que tenha gostado e se inspirado. Mudanças fazem parte da nossa vida e sempre trazem aprendizados, evolução e novos pontos de vista mesmo.

      Obrigada pelo comentário! =]

  11. 13/03/2017 at 07:51 — Responder

    Pati que texto foi esse menina, nossa mãe to nem sabendo lidar.
    Me sinto exatamente assim e as vezes acho que é muito difícil pra quem ficou, aceitar que quem foi não volta mais.

    • 13/03/2017 at 11:24 — Responder

      Que lindo!!
      Muito bom ver que mais pessoas se identificam com esse sentimento tão difícil de explicar. Os outros as vezes não entendem a gente mesmo, mas a gente também precisa aprender a entender eles. Continuemos em viagens sem volta!

  12. Carolina Pires
    16/03/2017 at 11:02 — Responder

    Patricia,
    Amei seu texto.
    É muito difícil mesmo explicar a mudança pra quem ficou. Estou viajando há cerca de 5 meses pela Àsia e já sinto que perdi amigos que eu amava… não porque brigamos, mas porque os interesses mudam e eles não conseguem me entender e se desinteressam. É sofrido!
    E mais sofrido ainda é perder a identidade… ficar sem saber quem vc é…
    Me identifiquei com seu texto e é ótimo saber que tem alguém que entende a gente.

    • 17/03/2017 at 11:51 — Responder

      Que lindo depoimento! <3
      Os amigos de verdade não se perdem. Não se preocupe com isso. Vcs estão apenas em momentos diferentes da vida, cada um com sua prioridade. Com o tempo, os interesses mudam, cada um segue seu rumo e aquele ponto em comum que unia vcs passa a não fazer mais sentido. É natural.
      Viagens longas, ainda mais pela Ásia que é tão diferente, fazem esse processo de mudança se intensificar. Entenda isso, entenda que seus amigos estão em outro processo de mudança e não sofra.

      Ficar sem saber quem vc é é uma das melhores coisas. Na verdade, vc não está perdendo sua identidade, mas se reencontrando com a pessoa que é de verdade. Curta essa busca. Ela sempre faz muito bem pra gente. =]

  13. 23/05/2017 at 21:12 — Responder

    Poxa, Patrícia, que bela reflexão! Como sair da bolha pode nos mudar, não é mesmo? Nem precisa ser em uma viagem de seis meses… Basta abrir a mente e o coração.

    • 01/06/2017 at 12:41 — Responder

      Exato! O mais importante é ser abrir para os aprendizados e mudanças.

  14. 25/05/2017 at 18:00 — Responder

    Que texto lindo, Paty! Arrepiei. Ver o mundo, se desapegar das coisas materiais é a melhor coisa que existe. Não para o materialismo. Sim para a liberdade de ser quem quiser e onde quiser.

  15. Dayana
    25/05/2017 at 18:47 — Responder

    Encaixou total com o meu estilo de vida. hahaha Também curto e quero demais essa liberdade fora do padrão!

  16. 27/05/2017 at 14:51 — Responder

    As viagens mudam a gente! 🙂 As grandes, as pequenas… se a gente é aberto a aprender sobre o lugar, a cultura e sobre nós mesmos, a gente muda, cresce e volta muito melhor! 🙂

  17. 27/05/2017 at 15:20 — Responder

    Patrícia, que texto é esse? Um arraso! Uma baita de uma reflexão sobre os valores dessa vida! Texto que deveria ser viral tamanha a importância dessa reflexão!
    Parabéns!

  18. 05/06/2017 at 15:43 — Responder

    Quem parte nunca é quem volta. Viajar é uma experiência de vida. Amei a sua reflexão.

    • 12/06/2017 at 16:15 — Responder

      Com certeza, Aline!
      Viajar é uma transformação profunda, se a gente deixar acontecer. =]

  19. Maria Cristina
    11/01/2018 at 15:46 — Responder

    Que delícia de tarde quando você não está fazendo nada e resolve conhecer o mundo através de palavras inspiradoras como essa. Obrigada por lembrar daqueles que não tiveram a oportunidade de viajar, mas acabo de viajar em seu texto e tenho certeza que cada vez mais foco na simplicidade. Parabéns! Quero ter asas pra voar mesmo com os pés no chão ?

    • 19/01/2018 at 21:41 — Responder

      Maria Cristina,
      Não tenho nem palavras para te responder. Lindo comentário!
      Eu que agradeço por vc passar por aqui e deixar essas belas palavras. Me inspirou!

  20. 07/06/2018 at 09:09 — Responder

    Adorei o texto!!
    Parabens.

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