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A cristalina cachoeira de Santa Bárbara

Essa foto não é obra de photoshop. Existem lugares que merecem uma visita e a Cachoeira de Santa Bárbara é um deles – atração imperdível para quem vai para a Chapada dos Veadeiros. Concordo que não é o lugar mais perto e que tem o acesso mais fácil, mas um mergulho nas suas águas cristalinas fazem o sacrifício valer a pena.

A Chapada dos Veadeiros fica no estado de Goiás e a forma mais fácil de chegar é voar até Brasília e pegar mais 3 horas de estrada até Alto Paraíso ou São Jorge, as duas principais bases turísticas da região. Todas as dicas sobre o local estão neste post. A Cachoeira de Santa Bárbara fica nos arredores da cidade de Cavalcante, então se você quer conhecê-la a primeira coisa a fazer é se deslocar até lá.

Para quem está de carro e sai de Alto Paraíso ou de São Jorge, basta seguir a rodovia GO-118, a mesma que vem de Brasília, até a cidade de Teresina de Goiás e virar à esquerda. Tenha atenção nessa saída, existem placas de indicação, mas elas podem ser um pouco confusas. São 90km de estrada. Quem não está motorizado pode contratar um passeio full-day em uma das agências de turismo ou contratar um guia com carro. Não há transporte público até Cavalcante e ainda que seja possível conseguir uma carona até a cidade, a cachoeira é longe do centro e o acesso é por estrada de terra. Tem gente que faz esse trecho de bicicleta. Se essa for sua opção, prepare-se para comer poeira (nesse caso, terra).

Se você tem mais tempo de viagem, pode se hospedar em Cavalcante para ficar menos puxado. Para quem tem os dias mais contados, dá perfeitamente para ir até lá, conhecer o lugar e voltar para Alto Paraíso ou São Jorge no mesmo dia. Só tenha em mente que é preciso sair cedinho e que a volta será no final do dia (provavelmente no início da noite).

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O azul da Barbarinha

Logo na entrada de Cavalcante tem um CAT (Centro de Atendimento ao Turista), onde você pode se informar sobre o caminho. A entrada da estrada de terra não fica tão longe de lá, mas preste atenção nas orientações, não é um caminho em linha reta. A internet do celular não funciona muito bem, então fica a dica: baixe o mapa antes de ir, pode ajudar bastante.

É bem provável que um profissional de lá se ofereça para te acompanhar até a cachoeira dizendo que é obrigatório ter um guia, que a estrada de terra é longa, que tem travessia de pontes e rios etc. Isso tudo é verdade, mas é possível fazer o caminho de carro por conta (mesmo com as pontes e rios) e contratar o guia na comunidade Engenho II.

São 38 km de estrada de terra e as condições não são tão ruins, apesar de ter curvas, subidas e descidas. Tem um mirante com uma vista bonita no caminho e vale parar 5 minutinhos para tirar uma foto (na ida ou na volta, tanto faz. Se a ideia é ver o por do sol já aviso: desse mirante não dá). A aventura fica por conta das pontes de madeira, que são pequenas, estreitas, nunca sinalizadas e de algumas fica até uma dúvida se realmente aguenta o peso dos carros =P . A dica é não correr muito para que elas não apareçam de surpresa no meio do caminho. É preciso ainda atravessar três rios com o carro. Dois deles tem águas claras e dá para ter noção da profundidade, mas um deles estava com água bem barrenta. Tente a travessia pelas partes mais rasas, na dúvida veja as marcas dos pneus que já passaram por lá. Vale dizer que eu fui na estação seca (de abril a outubro) e na época de chuvas as condições podem ser diferentes. Se você for nessa época, peça orientação antes de ir, pois os rios devem ter maior volume de água.

Esse trajeto por terra termina na entrada do Engenho II, uma comunidade quilombola, originalmente formada por escravos refugiados que se esconderam e viveram isolados por anos. As comunidades da região são também conhecidas por kalungas e a história que os locais contam é que eles se esconderam em um lugar de acesso tão difícil que só ficaram sabendo da Lei Áurea, a lei de 1888 que aboliu a escravidão, cerca de 40 anos depois de sua assinatura.

Na entrada da comunidade é preciso pagar uma taxa de R$ 20 por pessoa e também contratar um guia kalunga (se você estiver sem guia). Vale lembrar que é obrigatório ter um guia para acompanhar o grupo nas trilhas e  cachoeiras. O valor do guia kalunga foi R$ 70 para o grupo (estávamos em 4 pessoas). Lá no CAT de Cavalcante o valor era de R$ 80 e incluía a assessoria na estrada de terra para travessia das pontes e rios + passagem pela Cachoeira Ave Maria, que fica fora da comunidade (esta é só para fotos, não pode tomar banho). Se for pegar o guia do CAT, deixe um lugar no seu carro reservado para ele. Se você for com um guia de Alto Paraíso ou São Jorge é bem provável que ele seja mais um motorista que um guia mesmo e que seja preciso contratar o kalunga também (confirme antes de contratar). A comunidade é super simples e o turismo é uma das principais atividades, ou seja, contratando o guia kalunga você está ajudando a manter a comunidade.

O único banheiro que você vai ter acesso é na entrada da comunidade, então essa é a hora. Antes de partir para a trilha não esqueça de agendar seu almoço (comer lá é opcional, mas vale a pena). Partindo da entrada da comunidade, a trilha até a Cachoeira Sana Bárbara tem 7 km, sendo que é possível fazer 6 deles de carro se o rio estiver baixo. Se o volume de água estiver alto e o carro não conseguir passar, é possível pagar por uma caminhonete para fazer a travessia e te levar até o estacionamento. Não sei dizer o valor porque nosso carro atravessou o rio. Dá para andar esses 6 km também, para isso garanta água e protetor solar, pois esse trecho é bem aberto e, dependendo do horário, o sol não perdoa. Chegando no estacionamento para deixar o carro, o último trecho (1 km) é só a pé. O caminho, apesar de muitas pedras e do final ser em mata mais fechada, não é difícil.

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O trecho aberto da trilha para Cachoeira de Santa Bárbara

Primeiro passamos pela Barbarinha, um poço super azul com uma pequena queda d’água. É lindo! A poucos minutos de caminhada fica a tão esperada Santa Bárbara e suas águas cristalinas. A água tem uma cor azul turquesa fantástica.

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É preciso ter atenção em alguns pontos para aproveitar melhor o passeio:

  • Chegue cedo. A água só tem esse azul com a luz direta do sol e isso acontece mais ou menos até meio-dia. Na sombra ela perde o charme (veja que na foto abaixo a sombra já cobriu quase todo o poço e a cor é bem diferente da primeira foto). Se programe para chegar no máximo até as 11h na cachoeira (se possível antes) e considere que até lá são 2 horas de estrada + uns 30 minutos de trilha, fora o tempo na recepção para pagar a taxa, ir ao banheiro e conhecer o guia. Se a primeira parte da trilha for a pé o tempo é maior. A época em que o sol incide por mais tempo é entre setembro e janeiro.
  • Preste atenção nas orientações dos guias e dos salva-vidas. Na época de chuvas dizem que ficam dois salva-vidas na cachoeira. Quando chove na cabeceira do rio existe uma grande chance de ter trombas d’água e o volume da cachoeira aumenta muito e de repente. Não arrisque sua vida!
  • Confira a previsão do tempo do dia e dos dias anteriores. Trilha e cachoeira com chuva nem precisa dizer, né? Mas é importante ver dos dias anteriores também porque quando chove a água não fica tão limpa e o azul turquesa dá lugar a um tom esverdeado.
  • Se possível, evite ir em feriados e finais de semana. Obviamente porque são os dias mais cheios e a comunidade é consciente sobre a preservação da natureza. Em dias de muito movimento eles limitam o número de pessoas nas trilhas (talvez você tenha que ficar um tempo esperando até liberarem sua entrada) e o tempo de permanência na cachoeira é restrito a 1 hora (depois você tem que sair para outras pessoas entrarem). Se não tiver outra data, programe-se para chegar ainda mais cedo.

A Santa Bárbara merece um momento de apreciação, um de fotos e um de mergulho. Como toda cachoeira, a água é gelada sim, mas vale o friozinho inicial. Aproveite para fazer uma massagem debaixo da queda d’água ou apenas para se sentir no paraíso e relaxar. Para quem não sabe nadar, pergunte para o guia quais são as melhores partes, pois tem lugares rasinhos e outros bem fundos.

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Cachoeira de Santa Bárbara, o paraíso escondido em Cavalcante

Depois de curtir o lugar chega a hora de fazer o mesmo caminho de volta à comunidade e seguir para a segunda cachoeira do dia: a Cachoeira da Capivara. Partindo da entrada do Engenho II, são poucos minutos de carro e mais trilha. A distância não é grande, mas o caminho é cheio de pedras e “pontes” (entenda como tábuas que ligam uma pedra à outra), o que torna a caminhada um pouco mais difícil (mas nada crítico).

A Capivara é ótima para banho, mesmo para quem não sabe nadar. Água bem tranquila e a única parte funda fica isolada por uma corda. O fundo é cheio de pedras grandes, então olhe onde está pisando e tome cuidado, pois algumas são escorregadias. Não deixe de ver a queda d’água que fica depois da área de banho.

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Cachoeira da Capivara, também na área da comunidade kalunga

Mais uma vez, o caminho de volta é o mesmo até a comunidade e o tão esperado almoço está chegando. Nossos estômagos já gritavam de fome, pois já eram mais de 3 da tarde. Se não fossem as comidinhas que tínhamos nas mochilas, acho que ia faltar força para a trilha da volta. Fica a dica: além da água, leve alguma coisa para disfarçar a fome (mas não coma tanto a ponto de estragar seu apetite para o almoço).

A comida kalunga é simples e uma delícia. Foi a melhor refeição que fizemos na Chapada dos Veadeiros. Sabe aquela comidinha bem caseira, bem temperada e feita no fogão à lenha? Arroz, feijão, galinhada, pure de abóbora, baião de dois, farofa e por aí vai… Já deu até água na boca. O prato feito custa R$ 20 e o coma o quanto conseguir fica em R$ 25. Se quiser o PF avise antes de fazer o prato. A dica aqui é almoçar depois das duas cachoeiras. Saímos com as barrigas tão cheias que ia ser bem difícil fazer uma trilha na sequência, ainda mais a da Capivara que exige um pouco mais.

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Refeição kalunga: comida caseira, simples e bem temperada

Depois de um dia de aventuras, é hora de fazer o caminho de volta. Estrada de terra, pontes e travessia de rios de novo, por isso é bom sair antes do sol se por. Para quem fica em Cavalcante o descanso está próximo, para quem volta para Alto Paraíso ou São Jorge ainda tem 90km de estrada pela frente.

 

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The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Nascida em São Paulo, já chamou de casa o Japão, a Austrália, o Chile e tem o passaporte carimbado por uma volta ao mundo. Descendente de japoneses com orgulho e ativa na comunidade nikkei, participa de projetos para divulgação do Japão e para o fortalecimento da cultura japonesa no Brasil. Está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

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