Reflexão

100 mil mortes. E daí?

Já fazem mais de 4 meses que eu estou em casa, com saídas raras para compras essenciais apenas. Nesse tempo muita coisa aconteceu. Aquelas piadinhas do início desse período de isolamento social, quando as pessoas não sabiam o que fazer com o tempo livre duraram pouco tempo. Fomos nos moldando a essa vida mais caseira. Quem não sabia aprendeu a fazer reuniões online na marra, nem que só para conseguir falar com a própria família. A rotina foi se recriando e, apesar da vontade de sair de casa sempre existir, entendemos que é sim possível nos adaptar a isso tudo.

Nos jornais o assunto não muda muito. Corona vírus, Covid-19, UTI, respiradores, isolamento social, pandemia global (e um tanto de política). Eu, que era a louca das notícias no começo e passava o dia acompanhando tudo… parei. Tive meus dias de bad e achei que não estava conseguindo processar tanta informação. Minha cabeça explodiu em meio a tantos pensamentos que tive que colocar pra fora da forma que eu sei: escrevendo. Foi assim que o Não é sobre não viajar nasceu. Para organizar as confusões que estavam na minha mente. E isso me fez um bem danado!

Com os pensamentos mais em ordem as coisas ficaram mais leves e começaram a fluir. A distância das notícias ruins melhoraram meu humor em um nível de entrar em uma fase tão idiota que eu comecei a gargalhar de memes que usualmente eu acharia sem graça. Foram dias bons, mas não dá pra viver nessa bolha para sempre. Fui aos poucos voltando a acompanhar uma notícia ou outra. O “ficar em casa” que era novidade, virou rotina. A sociedade se moldou a esse novo modo de viver, muita coisa mudou e boa parte dos meus projetos segue em frente, talvez com alguma alteração em sua forma.

Aprendemos que existe vida com o #fiqueemcasa se puder. Que dá pra trabalhar e ser produtivo em home office, que dá para fazer muita compra online e não precisar ir pra rua, que a vida social existe, ainda que não seja a mesma coisa. Será??

E o isolamento social?

Eu concordo que a gente não esperava que essa situação fosse durar todo esse tempo. Ficar semanas e semanas sem sair de casa cansa sim. Não ver as pessoas faz falta. Já estamos com saudades de pé na estrada e de conhecer lugares novos.

Estou em casa, mas queria estar com meus amigos. Com muitos deles e nada de 1,5m de distância segura. Queria estar fazendo aquelas viagens que eu tive que cancelar e não tenho ideia de quando elas irão acontecer (se acontecerem). Queria estar fazendo um tanto de coisas que eu não estou. Querer não é poder.

Não precisamos entrar em detalhes da importância do isolamento, da facilidade com que esse vírus se espalha e contagia as pessoas, de quem faz parte do grupo de risco etc. Muito já se falou disso. Até já cansou. E por que as tanta gente está saindo de casa como se não tivesse mil mortes por dia acontecendo?

As pessoas demoraram para se conscientizar da importância do isolamento social. E rapidamente se esqueceram dele. Algumas nunca se importaram, vamos concordar, né? E essa falta de consciência coletiva, esse universo que gira em torno do umbigo dessas pessoas ou podemos até dizer um certo egoísmo faz muita diferença. Temos exemplos bastante negativos e um governo confuso pra caramba que passa mensagens contraditórias. Isso também faz muita diferença, mas… consciência, cada um tem a sua e sabe bem o que faz.

A gente sabia que existia um limite de tempo para algumas coisas. A economia não pode ficar parada pra sempre e aos poucos os serviços estão voltando e os estabelecimentos estão abrindo as portas. A grande maioria com atendimento reduzido e espaços que foram adaptados à essa situação. Tem pessoas que nunca pararam de sair de casa porque precisam estar na rua para trabalhar (aqueles serviços essenciais de verdade. Obrigada!!). A gente mesmo precisa sair de vez em quando para fazer algumas coisas necessárias. Ne-ces-sá-ri-as!

O que precisamos entender é que o essencial e necessário é muito diferente de satisfazer seus próprios prazeres porque você está cansado de ficar dentro de casa. Se você é do time que foi dar uma voltinha no shopping porque eles finalmente abriram as portas, dos que estão fazendo festas escondidas em casa (ou nada escondidas) com um monte de gente e sem nenhum cuidado… tenha consciência da sua contribuição para esse número que aumenta a cada dia. E que não tem previsão para diminuir.

Números e estatísticas

Chegamos nas 100 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Os números não param por ai. Temos os números de testes são feitos e quantos faltam para chegar na quantidade de infectados real. A tal taxa de mortalidade. Qual a conta para sabermos o quão próximo estamos do colapso do sistema de saúde? E do sistema funerário? Quantos leitos em UTI ainda estão disponíveis? E a relação de mortes nas regiões mais ou menos favorecidas da cidade?

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São números, planilhas gráficos e dados que não tem fim. Números não são meu forte, muito pelo contrário. Confesso que tenho uma enorme dificuldade com eles. Entendo a importância dessa análise toda para o planejamento, estatísticas, dimensão da situação e tudo mais, mas concorda que eles são frios demais para o momento que estamos vivendo?

Diferente do nosso presidente, que chama o próprio filho por um número, eu acho que pessoas são mais que isso. Estamos falando de vidas! 100 mil mortes quer dizer que são 100 mil histórias que perderam sua continuidade nesse mundo.

Aquele vizinho que você conhecia só de vista, o primo do seu chefe, a esposa do faxineiro, um parente próximo… cada pessoa que foi vítima de Covid-19 conta apenas um a mais nas estatísticas. Mas são pessoas que têm família, têm amigos, que mantinham relacionamentos, que faziam a diferença na vida de alguém (e ainda fazem). Os números de corações partidos e lágrimas derramadas ninguém está contando.

Além da tristeza de perder uma pessoa, temos agora o sistema que não comporta esse número de mortos e regras que não permitem uma despedida da forma como gostaríamos. Ainda quando doentes, ninguém pode visitá-los. Depois que se vão, os velórios são vazios e as famílias são consoladas por mensagens de whatsapp e facebook. Isso quando os corpos não são enterrados naquelas valas coletivas sem a menor dignidade que essas pessoas mereciam.

E daí?

Tem um tanto de coisa ruim acontecendo, mas precisamos enxergar que tem pontos positivos sim. Muitos! O mundo está mudando e nós estamos mudando junto. Em uma velocidade maior do que gostaríamos talvez, forçados a nos adaptar. Mudanças boas estão acontecendo, já aprendemos muito e temos bastante a aprender ainda. Estamos todos juntos e cada um pode fazer um pouquinho por isso.

Uma das grandes lições que precisamos tirar dessa situação que estamos vivendo é essa: estamos todos juntos. Essa pandemia veio nos ensinar a viver em comunidade, a pensar não só no nosso umbigo e olhar ao nosso redor, a ter consciência dos nossos atos e como eles impactam outras pessoas.

E daí? O que eu tenho a ver com isso? Muito! E tenha certeza que você pode contribuir.

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

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