Reflexão

Precisamos mesmo trabalhar?

A resposta para essa pergunta vem rápido. É claro que sim! Tenho contas para pagar, uma família para cuidar, tem que por comida na mesa, tem a mensalidade da escola do filho, a prestação do carro, a faculdade, a cerveja do happy hour e a fatura do cartão de crédito. E já que estamos em um blog de viagens, inclua na lista a última parcela da passagem aérea, a conta do hotel e as compras do free shop.

Você se identifica com essas respostas, seja uma, duas ou boa parte delas? É bem provável que sim e não tem nada de errado em querer cuidar de quem gostamos ou mesmo nos dar um certo conforto. Mas será que a gente trabalha só pelo dinheiro e só pra pagar contas?

Se você é um leitor frequente deste blog, pode ter percebido que fazem quase 3 meses que eu não escrevo por aqui. Dizer isso não me faz nada feliz, mas é fato, o blog ficou esse tempo meio abandonado. Antes de falar sobre isso, vou te contar uma história da minha vida.

Uns bons anos atrás eu trabalhava em uma grande multinacional. Tinha meu salário todo mês, benefícios, desafios e até um certo status por ser uma empresa renomada. Não posso reclamar. Foi uma verdadeira escola onde eu aprendi demais, tive muitas oportunidades e conheci muitas pessoas queridas por quem tenho um enorme carinho até hoje (mesmo não tendo mais tanto contato). Dentre tantas coisas boas, depois de 5 anos algo dentro de mim começou a gritar. Não era o meu lugar, eu estava em um local a que não pertencia e fazendo algo com o qual não me identificava. Eu não entendi isso na época, mas era claro que algo não estava certo. Pedi demissão.

Em pouco tempo comecei a trabalhar em outra grande empresa. Um cargo melhor, salário mais alto e meia dúzia de pessoas que merecem ser lembradas. Foram 2 anos sofridos porque ali também não era meu lugar e pior, tinha algo além disso que me incomodava muito. Sabe, quando os seus valores pessoais não estão alinhados com os da empresa (ou com os de quem manda no negócio) fica muito difícil de lidar. Foi esse dinheiro sofrido que pagou boa parte da minha volta ao mundo (tem que ver o lado bom da coisas, certo?), mas definitivamente não é o lugar que eu digo com orgulho que fiz parte. Na verdade, prefiro não dizer que trabalhei lá. Pode parecer ingratidão, mas eu morro de vergonha ao ver a empresa nas capas de jornais por estar envolvida em escândalos como a lava jato.

Lembro claramente do meu último dia no escritório. Logo que sai, encontrei com meu, na época, namorado. “Você quer tomar um café e conversar?” e eu respondi “Café não, vamos pro bar tomar uma cerveja e comemorar!”. Já viu alguém ficar feliz por estar desempregada?

Uns meses depois eu ainda voltei para aquela primeira empresa, para um contrato temporário de 6 meses. De fato, lá é uma escola com muitas pessoas queridas, mas não era mesmo o lugar que eu digo ser meu. E  foi aí que o mundo me chamou. Os detalhes de como eu decidi fazer uma viagem volta ao mundo eu já contei aqui e aqui e tem muita coisa aqui.

Foi no mundo que eu entendi o quanto a liberdade é, em tantos sentidos, importante para mim. Foi rodando por aí que eu aprendi a dar mais valor para as pessoas e para o momento presente. A estrada me ensinou que o desapego é uma da coisas mais incríveis (e mais difíceis) que podemos aprender. O mundo é minha maior escola e foi aí que eu percebi que não preciso de um lugar para chamar de meu. Tem pessoas que criam raízes e tem aquelas que criam asas (fica aqui o link para um dos meus textos favoritos).

Depois de mais de 6 meses viajando pelo mundo, eu voltei para o Brasil. Nessa época eu tinha o blog apenas como um hobby, só para atualizar meus amigos e familiares das minhas andanças, e eu percebi que ele podia ser mais que isso. Eu tinha histórias para contar, informações para compartilhar e o blog seria o canal. Investi nele e em mim, fiz cursos de marketing digital, mergulhei no mundo das redes sociais, da fotografia, estudei técnicas de redação, viajei e conheci muita gente bacana nesse meio. Muitos não têm ideia do trabalho que botar um simples post no ar dá.

Em alguns meses ele começou a me trazer retorno financeiro. Não é nenhuma fortuna, mas paga minha cerveja do final do dia. Apesar de uma vida financeira muito mais controlada, o Bagagem de Memórias preencheu um vazio dentro de mim que as empresas, com toda a estrutura que têm, não conseguiram fazer.

Eu havia prometido pra mim mesma que nunca mais voltaria para o mundo corporativo. Joguinhos e politicagens empresariais, sem falar desse mundo sujo que existe nos bastidores, são coisas que me tiram a paciência. E foi quando eu estava em algum lugar entre Montreal e Toronto, em uma viagem pelo Canadá, que uma conversa por Skype me trouxe uma proposta de emprego. Não foi a primeira vez e as outras eu recusei sem peso na consciência. Mas essa, meu sexto sentido disse para pensar com mais calma.

Está gostando desse artigo? Que tal curtir o Bagagem de Memórias no Facebook?


Como conciliar viagens e trabalho? Essa é uma pergunta que eu escuto muito e virou meu atual desafio (mas isso é assunto para outro post). Junte isso às atividades voluntárias, vida social e outros compromissos e isso explica os 3 meses sem postar por aqui. =/

 

Mas… voltando a pergunta inicial desse texto. Precisamos mesmo trabalhar?

Entre o trabalho sofrido que paga as contas e aquele que te preenche, mas te faz contar moedinhas, qual é o melhor?

Nenhum deles. A gente vive em um modelo de sociedade que gira em torno do dinheiro, isso é fato, e é muito difícil sair dele. Mas eu também acredito que o nosso emprego faz parte de algo muito maior que é a nossa vida e nós não viemos ao mundo só para pagar contas. A gente nasceu com uma tarefa para cumprir, basta descobrir qual é. O que te faz feliz? O que você faz bem? O que o mundo precisa e você pode ajudar? Qual sua vocação? Sua paixão? Sua missão? Qual o seu propósito de vida?

Essas perguntas não são nada fáceis de serem respondidas. Não é em uma reflexão de 5 minutos, tampouco de 5 horas que as respostas vêm. É um processo profundo, é dolorido e vai desconstruir muitos conceitos que você tem como verdade, mas quando você as acha, tudo começa a fazer sentido. As respostas certas te dão um caminho a seguir e as coisas começam a se encaixar.

Quando seu emprego faz parte desse caminho ele deixa de ser um sofrimento só para pagar as contas. O seu consumismo passa a ter motivo real e deixa de inflar seu ego e seu status social para preencher aquele vazio por dentro. As suas viagens deixam de ser fuga e passam a ser encontro.

(Foto: VisualHunt.com)

Hoje eu entendo porque as empresas que eu falei lá em cima não eram o meu lugar. Agradeço por tantos aprendizados e pelas pessoas que conheci, mas é preciso saber a hora de seguir o caminho que a gente escolhe para gente. Simples dizer, mas na prática não é tão fácil assim.

Nesse modelo que gira ao redor do dinheiro, deixar a estabilidade financeira é para os loucos e para os muito corajosos. Ou para quem guardou dinheiro a vida toda para seguir seus sonhos depois que a juventude se foi (que fique claro que nunca é tarde para começar!). Sair da zona de conforto não é fácil (por mais estranho que soe dizer que estar em um emprego que a gente não gosta ser confortável), mas é fora dela que a mágica acontece. As vezes a gente se move por conta própria, as vezes a vida se encarrega de nos dar um empurrão.

A mudança não precisa ser drástica. Que tal começar descobrindo suas respostas, traçar seu caminho e começar a se mexer? Não é um incentivo para pedir demissão amanhã, mas um convite para refletir e tentar algo novo, aos poucos. Faça um curso no final de semana, um trabalho voluntário nas horas vagas, troque a novela da noite por uma experiência diferente. Quando você acha o caminho essa jornada toda é uma descoberta muito gostosa. A energia e a motivação para fazer acontecer simplesmente aparecem.

Depois de tanto tempo sem postar por aqui, esse não foi exatamente um texto sobre viagens, mas explica porque eu volto pra cá. Talvez falar sobre o meu propósito de vida seja um assunto um tanto quanto pessoal demais para abrir aqui, mas posso dizer que viagens fazem parte dele. Eu acredito muito que o mundo transforma pessoas em versões melhores delas mesmas. E são pessoas melhores que vão mudar o mundo.

The Author

Patricia

Patricia

Patricia é educadora de formação, marketeira de profissão e viajante por paixão. Amante da natureza, de aventuras, da cultura asiática e de causas sociais, reside em São Paulo, mas já morou no Japão, na Austrália e no Chile, já deu uma volta ao mundo e está sempre em busca de boas recordações para adicioná-las à sua bagagem de memórias.

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *